terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Na noite


Dói!
És como um espectro na noite
Dói quando a noite é fria e tu és apenas uma memória
...vem assombrar os meus sonhos
Mergulho o rosto no teu peito
O meu corpo escondido nos teus braços
Dói quando o teu abraço me faz falta
...como hoje

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Esperança

Há uma rua na minha cabeça chamada esperança
Contorna-me os olhos com malícia
Invade-me a boca descontroladamente
...ânsia, desejo ardente, incerteza...
Desce aos pulmões e sufoca-me
No coração… faz um curva apertada no coração
Nas aurículas é uma auto-estrada sem limite de velocidade
Num túnel a 200 kms hora
Tutum...bumbum...cabum
Palpitações a disparar todos os radares do corpo
Vira logo à direita e
Atinge-me o estômago em cheio
Borboletas de ferro num murro ko
Caio ao chão
A rua avança pela coluna como uma serpente ondulando
(pensar-se-ia que é um tremor de terra)
Eleva-me novamente
Com malícia
…é uma falsa…
Depois perde-se pelas mãos magras e quase sempre vazias.

*

Há um movimento que fazias com o braço direito quando giravas o volante do carro e que faz parte da minha memória de ti.
Era um movimento amplo, como se acompanhasses com a mão o percurso do sol pelo céu azul
Embora, certamente, muita gente faça o mesmo eu nunca vi ninguém repetir esse gesto… até hoje, quando te vi a desenhar um arco no ar do meio-dia.
Mas não era o sol que a tua mão acompanhava, era talvez um pensamento vago que enxotavas ou
a dor que tens colada a ti e à qual te foste habituando, era uma flor a sangrar que embalavas sem esperança.
(A ausência é uma dor latente, uma moinha incómoda que não sabemos muito bem de onde vem. Quase sempre é o que nos embala o sono quando nada mais resta e a noite já vai alta.)

domingo, 9 de agosto de 2009

Tudo isto para dizer... adeus




domingo, 2 de agosto de 2009

Uma Colisão...Três pontos de vista


I
O semáforo fica verde e arranco. Ao fazer a curva reparo num carro que vem em sentido contrário. "O que é que aquele doido está a fazer? Ele não vai conseguir parar...". O segundo que demora até o carro embater no meu é demasiado longo. Não me mexo, não reajo…a minha boca abre-se em espanto e só penso “ele vai parar, ele vai parar...oohhh, ele não vai parar...”. Olho, incrédula, o destino que vem na minha direcção. Branco. Vejo tudo branco. Rebolo...não sei para que lado é o chão ou o céu. Talvez seja neve porque sinto um frio nas costas que me queima de dentro para fora. Não, não pode ser neve porque estamos em Agosto e em Agosto não neva em Paris. A boca sabe-me a ferrugem e a sal. Ouço o barulho de sirenes e tento virar a cabeça nessa direcção. Forço os olhos que se abrem novamente para o branco... ah, afinal é a camisa que me cai sobre a cara. Por entre o vidro rachado vejo um rosto que reconheço a sair da ambulância. Um fantasma do passado preso à memória do presente. Fixo os meus olhos nos teus e sorrio. Há uma mão que me toca no ombro e depois sou arrancada ao abraço do carro. Ouço um gemido a sair da minha boca que não me lembro de ter dado. Seguras-me a mão. Prendes-te a ela como que para me prender à vida. Vejo-te gritar para alguém, mas não ouço o que dizes. O único barulho que ouço é o do frio a cobrir-me, como um navio a arrastar-se pelo meio do gelo. Queria estar encostada a ti, sentir o teu corpo quente a embalar-me, sentir os teus braços à volta do meu corpo e a tua mão a segurar-me o peito como costumavas fazer... Sorrio à lembrança…mas talvez a minha boca tenha feito um trejeito diferente ou descoordenado, porque no teu rosto há agora uma máscara de horror e angústia. Aproximas-te de mim como se me fosses contar um segredo e num murmúrio dizes para ti próprio "Continuas a usar os brincos de pérola que te dei...". Sorrio. "Seu tolo, eu sempre te amei!"

II
O príncipe entrou como um vendaval e atirou-se de joelhos aos pés da cama, abraçando as mortalhas de seu pai. Havia um cheiro penetrante a incenso e a vazio. A rainha-mãe estava de pé no meio do quarto, olhando-o angustiada e ainda incrédula da tragédia. Com um suspirou profundo baixou o rosto, mas logo recuperou a compostura e se ergueu como quem tem um dever que lhe transcende a vontade. Há muito a fazer. Há um novo rei a coroar. Há uma casa a governar. Há uma promessa a fazer cumprir.
“Meu filho, agora és rei! Todos esperam de ti um comportamento exemplar e a vida que levaste até agora terá de acabar.”
O príncipe enterrou ainda mais o rosto na cama, como se tentasse impedir aquelas palavras de o atingirem. “Essa mulher não é digna de estar ao teu lado. Afastou-te dos teus deveres demasiado tempo, tornou-se uma mancha na reputação desta família e agora é altura de ser afastada.” “Eu amo-a mãe!” E estas palavras saíram como um silvo de agonia por entre os dentes cerrados. Nos seus olhos abertos havia água, sangue e uma mágoa imensa de quem sabe estar prestes a ser quebrado em pedaços. "Meu filho, o amor que destrói uma família acaba por se destruir a si próprio", disse a mãe olhando com ternura para o filho."Mas mãe...". "Basta!", disse a rainha, "Voltará a haver paz nesta casa. Era este o desejo de teu pai! Sabes o que isso significa, não sabes?”. O silêncio encheu o quarto envolto na penumbra. O príncipe ergueu-se lentamente sob o peso desta dupla sentença. O seu rosto tinha agora a mesma expressão sombria dos panos que cobriam os espelhos do quarto e, no entanto, estava sereno em toda a sua certeza. Curvou-se em reverência perante sua mãe e disse, naquela voz solene e grave que só os reis possuem, “Seja feita a sua vontade”.

III
- Eu amo-te... se soubesses como te amo, mas ao mesmo tempo como me sinto pequena e estranha… é que há momentos em que me sinto infeliz quando não posso estar só... tenho a impressão de não ter lugar neste mundo a não ser no recanto que me ofereceste dentro de ti. Até te encontrar para mim tudo era uma prisão, sentia-me sempre fechada e tu abriste-me o mundo inteiro e quando penso nisso…na maneira como te deste, na liberdade que me deste, digo-te que fui estúpida por ter tido medo e não ter tido força para suportar todo o mal à nossa volta. Queria dizer-te que quando nos afastámos tentei não pensar em ti – de que me valia - tentei descobrir outras vidas, viajar, conhecer novas pessoas, mas tudo me fazia lembrar de ti, como se o meu coração tivesse ficado no teu peito e eu não conseguisse viver em paz. Mas o importante é que o teu coração continue meigo, porque sei que se ele for meigo, então eu nunca te perderei. Sei que agora já é tarde, mas se um dia precisares de mim, se não puderes aguentar mais com a tua vida, eu irei ter contigo onde estiveres...agora já posso esperar. - A sério que me esperas?
- Sim, eu espero.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Todos os dias...

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças


(Miguel Torga)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O que me define

Se existe algo que me define é a forma como caminho na montanha.
Para mim as montanhas são muito mais do que montes de pedra e erva. As montanhas representam a minha vida, o meu do dia-a-dia, as suas dificuldades, as suas alegrias, os seus prazeres. Por isso tento superá-las, gozá-las, amá-las e respirá-las. Porque só assim posso viver!
Abraço e agradeço aos meus amigos de caminhada (principalmente aos 5 magníficos do Naranjo de Bulnes), pela sua força e determinação, e pelo companheirismo... foram subidas vertiginosas, quedas de água verticais, cascalheiras intermináveis, sol e calor, neve, nuvens sob os nossos pés (...nuvens expresso que nunca paravam para nos dar uma boleia)...
Guardo esse dia no pensamento e no coração, porque nessa subida fui uma de vós, nem mulher nem homem, apenas lutadora numa guerra interior, nós contra os elementos, a nossa vontade contra o nosso corpo.
Ps: Sem vocês os 5 não teria tanta piada subir aquela cascalheira :-)
.
Naranjo de Bulnes
(... 10h de subida vertiginosa)

Fuente Dé
(pedras no caminho? guardo-as todas, um dia vou construir... uma casa aqui)

Ruta del Carez

sábado, 6 de junho de 2009

Picos de Europa

"respiro
respiro pela primeira vez
inspiro o ar em grandes golfadas
inspiro as nuvens, as árvores e a pedra
renasço
solto um suspiro
como um prisioneiro da alma
finalmente em liberdade"

quinta-feira, 16 de abril de 2009


Adormeço.
Lembro-me do dia 23 de Dezembro de um passado distante,
de brincarmos nervosamente com as cores das argolas
como se desembrulhássemos prendas há muito esperadas
Lembro-me do castelo e das estrelas no céu do Marvão,
das estrelas sob os pés no chão do nosso quarto
Lembro-me dos 45 kg do meu corpo pálido e pequeno
suportado apenas por aquilo que crescia no meu peito
Lembro-me do teu corpo quente e imenso como um mar,
Das asas negras de corvo que se abriam dos teus olhos,
…das gotas de suor na fronte
Lembro-me da nossa canção
(terás tu esquecido o que dizia a letra da canção?)
Lembro-me da fotografia no miradouro de Sta. Cruz,
dos nomes gravados na rocha
e do buraco que depois gravaste no meu peito
Lembro-me de agarrar o peito com os braços para que o buraco não me engolisse,
do pavor ao acordar todas as manhãs e perceber que aquilo era real
e que tu tinhas morrido
(foste tu... ou fui eu que morri para ti?)
Lembro-me da dor, imensa como o teu abraço
eu, uma pequena boneca de ferro nos braços de um gigante de barro
É mentira - o tempo não cura tudo... e há poucas distracções para o tormento.

Acordei. (s
obrevivi)
Ainda hoje, quando acordo, não sei se sonhei.

terça-feira, 31 de março de 2009

Jane Doe

O tempo é como um corpo amputado.
Há no tempo aquela constante sensação de presença mesmo quando ele se acaba. Sentimo-lo à nossa frente, flutuando como uma criança num baloiço, inebriante de trás para a frente (às vezes de frente para trás), sem fim. Há no tempo um membro dormente que dá vontade de afagar, sem preocupação, como se passeássemos a mão pelos cabelos de alguém dizendo "está tudo bem".

Mas o que fazer quando o tempo se esgota? quando a dormência acaba e só existe vazio. O que fazer quando o tempo se conta em meses ou até semanas? Quando as mãos começam a tremer e a caneta nos cai dos dedos. Quando as palavras já só podem crescer dentro das folhas brancas da nossa cabeça. O que fazer quando o tempo está contado e se torna um corpo inteiro e palpável? quando o tempo chega aos dedos e acaba ali na ponta das unhas e depois já não tem mais para onde ir...

segunda-feira, 23 de março de 2009


A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada
esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre



(Al Berto)

quarta-feira, 4 de março de 2009


this is the winter of my contentment
the sea of tranquillity and shadow
and though I am surrounded by mist
there is nothing but love inside me

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Adrian


"Desculpa todos estes dias de ausência, mas preciso abrandar, talvez mesmo parar".
"Mas podias pelo menos ter mandado um email ou um pombo correio, ou algo do género", disse Adrian.
"Tens razão, desculpa. Eu entendo se não quiseres voltar a falar comigo ou ser mais meu amigo".
"NÃO... não é nada disso, só que fiquei preocupado". Respirou fundo e perguntou baixinho "Estás a desistir de viver?".
"Não é desistir de viver - tu sabes que eu sou corajosa...e obstinada e determinada e todos os outros adjectivos que possas associar a alguém que sonha muito - é apenas desistir de viver essa parte da minha vida, a parte sentimental".
Uma brisa fria passeou à sua volta e ela apertou ainda mais o casaco junto ao corpo. Olhou para o céu esperando por algo, como se estivesse numa paragem de autocarro e aguardasse desesperadamente um pássaro que a levasse dali.
Esboçou um pequeno sorriso e continuou "Sabes, já tive tantas desilusões e apesar da minha força de espírito, sinto-me cansada, muito cansada. E depois não quero fazer do amor algo banal, do género 'este não funcionou, partimos para outro e depois outro', e assim sucessivamente, numa estrada de ensaios e tentativas falhadas. De que serve passar a vida a tentar, só para se dizer que se tentou, se nunca vamos concretizar nada. Não, não vou fazer do amor algo banal, como se fosse uma roupa gira que vestimos e que ao fim de um ano passa de moda".
Suspirou profundamente e levantou o olhar até estar de frente para os seus grandes olhos verdes, e disse "Bolas, não queria ter de dizer isto...mas sabes, ainda acredito em almas gémeas, em amor para toda a vida, em amor que se fortalece com as tragédias da vida em vez de definhar. É uma fantasia infantil eu sei. Eu devia era estar fazer o que toda a gente apregoa à boca cheia, aquela coisa do carpe diem e essas tretas todas dos livros de auto-ajuda. Como se a vida fosse só hoje e nada mais interessasse...como se a paz fosse possível quando se está apaixonado por algo ou alguém".
Houve um silêncio longo como uma aceitação do que acabara de ser admitido, e por fim, hesitante, ela disse "Agora tenho ir. Não esperes mais por mim porque não sei quando regresso. Vou parar e descansar. Vou viver daquilo que existe em mim, alimentar-me desse sentimento por uns tempos. Vai ser bom não esperar nada de ninguém a não ser de mim própria. Vai ser como estar adormecida ou anestesiada. Como ver o mundo numa tela de cinema sem que o mundo me veja ou sequer me possa tocar. Assim talvez possa ter alguma paz". E sem mais demoras foi-se embora.
Ele começou a levantar a mão numa tentativa de lhe afagar o rosto, como se ainda houvesse tempo, como se isso fosse possível. Abanou a cabeça. Ele sabia que aquilo era apenas uma conversa online e apesar de ainda ter no écran à sua frente uma janela com o avatar dela, ela já lá não estava.
Voltou a pousar as mãos no teclado e escreveu "Tu queres desistir de viver e eu quero tanto viver para ti...".
Logoff.
Levantou-se da janela, atirou o pc para cima da cama e ficou ali parado por um instante a olhar a rua. Algo mudara naquele instante. O reflexo do sol nas folhas das árvores parecia-lhe agora baço. Depois baixou o olhar, meteu as mãos nos bolsos dos jeans velhos e saiu porta fora.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

(7) Além do horizonte


O som parecia mais um rosnar que um miado. Os olhos brilhavam amarelos na escuridão, lançando raios invisíveis de tensão e maldade. Cheirou o ar. Algo agradável lhe despertou a atenção e ele lambeu demoradamente o focinho para apanhar todo aquele aroma que lhe fez crescer água na boca. Decidiu-se por um arbusto alto que crescia junto à escarpa. Sentou-se e começou a alisar vaidosamente o seu pêlo negro. A espera não seria longa.

A andorinha treinava o seu vôo todas as manhã. Flood usava o seu bico branco para a ajudar a erguer-se sempre que a sua asa se torcia de uma forma pouco natural, querendo deixar de bater compassada. Por vezes não chegava a tempo e a andorinha aterrava ruidosamente de bico na erva fresca. Outras vezes ela trepava para o dorso de Flood e os dois rodopiavam pelo ar até ficarem tontos de tanto rir. Ela agora ria muito. Era do sal que as ondas libertavam junto à escarpa onde treinava e que lhe enchia as narinas embriagando-a. Era de Flood, que também a embriagava de tanta alegria de viver.

Naquela manhã Pintas decidiu partir. Já se sentia forte depois de tanto tempo e de tantos mimos. Faltava-lhe a luz do sol e faltava-lhe ela. Moly enterrou a mão no pêlo quente do seu pescoço recebendo um ronronar deliciado. Olhou para ela e disse-lhe "vou seguir o teu conselho e procurá-la. Se ficar mais tempo vou perder de vez aquilo que sempre quis e que deixei partir de forma tão infantil". Moly sorriu encorajando-o, "antes de atravessares o bosque, vai até às escarpas - ouvi dizer que muitos pássaros andam por lá, quem sabe a tenham visto". Pintas fechou os olhos e saiu decidido para a luz. Sacudiu o pêlo do pó e da preguiça e deu o primeiro passo.

A andorinha tentava um looping exageradamente aberto. Flood abanou a cabeça e suspirou. Sabia como aquilo ia acabar - um monte de penas atordoado no chão - mesmo assim deixou-a tentar. Ela elevou-se no ar e foi girando o corpito frágil até se ver a mergulhar em direcção à erva. Começou a bater as asas cedo demais. Ganhou velocidade e já não conseguiu voltar a subir. O choque deixou-a sem conseguir respirar. Ficou a olhar para o céu durante um bocado até se acalmar e por fim lá juntou forças para se pôr sobre as patas novamente. Enquanto alinhava as penas das asas reparou numa sombra negra que se elevava no ar. Devia ser Flood que vinha para a repreender. Numa fracção de segundos a escuridão fechou-se sobre ela. A última coisa que sentiu foi um bafo quente que lhe chegou em golfadas juntamente com o bater de um coração que se extinguia.

Pintas viu tudo do alto a pedra onde até há um minuto atrás tinha estado maravilhado a ver aquele bailado aéreo, pintado a preto e branco. O coração parecia querer explodir, primeiro de alegria e depois de fúria e desgosto. Os seus reflexos foram imediatos. Saltou para o chão e aterrou em frente ao outro gato. Ambos tinham o pêlo eriçado, fazendo-os parecer feras enormes. O outro gato, no seu ar de desdém ergueu-se nas patas traseiras. Assim visto, tinha um ar de anjo mau - uma asa negra saia-lhe de cada lado da boca, agitando-se numa tentativa inútil de erguer no ar aquele corpo pesado. Pintas abriu os olhos num espasmo de dor e entendimento e soube de imediato o que tinha a fazer. Sem receio, saltou sobre a barriga do outro gato, projectando os três para o abismo espumoso. Com a pancada, o rival abriu a boca, libertando a andorinha daquela prisão quente e fétida.
Enquanto tentava esvoaçar, a andorinha desviou o olhar para a massa escura que caia na água. Não era um gato, eram dois. O reconhecimento chegou-lhe tarde - já não conseguiu ver a lágrima que nascia daqueles olhos cor de âmbar que agora se afastavam para o azul profundo. Quando a andorinha atingiu a beira da escarpa ainda tremia. Deixou cair o corpo para o lado exausta. Fechou os olhos. Talvez assim pudesse reter a lembrança daquele olhar e daquele pêlo cor de chocolate de leite. Sentiu o ar encher-se de cheiro a leite morno, anestesiando-lhe os sentidos. A andorinha fechou os olhos para não mais os abrir. A lembrança do Pintas não voltaria a fugir-lhe, afogar-se-ia dentro dela.

A queda parecia não ter fim. O ar assobiava assustadoramente à sua passagem. Depois veio a água. Outra vez a água pegajosa. Outra vez sem conseguir respirar. Mas agora já não importava e até se sentiu estranhamente calmo e feliz - ela salvara-se! A primeira golfada de água não lhe soube a sal mas a raspa de limão, e com este sabor veio também um último pensamento "que parvo sou, nunca disse que a amava". Depois fechou os olhos e deixou-se cair, com um sorriso, através da escuridão.

Epílogo
Flood mergulhou velozmente seguindo o cheiro. Com a destreza de um falcão e a força de uma águia travou o corpo ao atingir a espuma revolta, enquanto as garras se fechavam sobre o lombo castanho ensopado.
A última coisa que os outros animais puderam observar do alto da escarpa, foi a visão de um grande pássaro, talvez um anjo de asas brancas, a brilhar sob o sol do meio dia. Na garras carregava um corpo inerte em direcção ao horizonte.

Fim

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Aquilo


A Sra. e o Sr. X viviam bem, não sei se felizes, mas bem. Acomodados na sua vida habitual, tranquila e pacifica. No entanto, dentro da Sra. X algo crescia. Desenvolvia-se dia a dia, alastrava do coração à ponta dos pés, do coração à cabeça. Saia muitas vezes pelos poros e ela não entendia o que era. Lavava compulsivamente o corpo para sacudir aquilo, como transpiração. Ganhava forma nos cabelos, que ela desesperadamente tentava alinhar. Na verdade aquilo não crescia. Na verdade aquilo sempre tinha estado dentro dela, desde a primeira vez que abrira os olhos ao mundo, desde a primeira inspiração. Uma máquina de matar corações. Latente. Sem o saber, a Sra. X mantivera-o trancado, como um ser ignóbil. Mas aquilo não se detinha. Circulava dentro de si como um fantasma, como uma corrente de impulsos eléctricos no seu cérebro, num bailado sincronizado, hipnótico. Aquilo crescia, agora. Já nada o detinha.
A Sra. X quis partir. Num desespero final, pediu ao Sr. X para se mudarem, para irem para longe. Para norte, pensou ela. A Sra. X gostava do verde e da chuva. A Sra. X gostava da neve que ainda não conhecia. Achou que mudar de ares seria bom para acalmar aquilo, para o tornar dormente pelo frio. Queria partir, mudar profundamente, talvez para apaziguar a angústia que por vezes a impedia de respirar quando se via sentada na carruagem do comboio que tomava todas as manhãs, olhando as mesmas pessoas, petrificadas nas suas vidas, dia após dia. Mas o Sr. X disse-lhe "não, nem pensar" em mudar a sua vida tranquila e pacífica. Ela baixou os olhos e engoliu aquilo que agora lhe enchia a boca como saliva venenosa. Sentia-o a corroer-lhe o estômago vazio. O cansaço começava a ganhar-lhe. Seria sempre uma luta desigual entra a Sra. X e aquilo.
Mas ela não sabia. Não sabia nada. Não sabia que dai a muitos anos, caso se tivesse mudado para norte e depois de ter conseguido amestrar aquilo com o clima frio, tendo passado a caminhar como uma tartaruga de carapaça pesada sobre uma corda bamba, inevitavelmente aquilo rebentaria em dose dupla.
Ele, o Sr. Y, que não conhecia a Sra. X, tentava igualmente domar aquilo que crescia dentro de si. Não o combatia, apenas lhe impunha limites, sem saber o que lhe fazer, como se fosse um apêndice inútil e incómodo. Caminhava de olhos postos no céu, esperando a salvação que nunca chegava. O Sr. Y, um homem de porte celta, com braços que pareciam asas de anjo e cabelo dourado, vivia a norte, no sopé de uma montanha, algures entre a chuva e a neve. Visitava desde há muito um médico bastante reputado, que tentava sem sucesso, nunca admitido, curar o mal que não o era.
Inevitavelmente, a Sra. X e o Sr. Y cruzar-se-iam na sala de espera do consultório. Ela levantaria os olhos do chão. Ele baixaria os dele, do céu. Sem nunca antes se terem cruzado, ambos reconheceriam aquilo no outro. Aquilo reconheceria aquilo, e eles perceberiam finalmente que era tarde demais. O amor acabara de lhes rebentar no peito.

domingo, 11 de janeiro de 2009



"Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome."




(Clarice Lispector)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Aeroporto


Sou como um aeroporto.
As pessoas passam pela minha vida com as suas bagagens, quase sempre caoticamente arrumadas... depois partem quando encontram o seu destino. Sempre de passagem.
O que fica é uma certa melancolia e ao mesmo tempo uma sensação de contentamento, porque geralmente partem com excesso de bagagem.
.
Mas há momentos em que gostava de ser como um avião e ter um aeroporto onde aterrar.
Em noites frias como esta, imagino como seria bom ter alguém a quem abraçar antes de fechar os olhos e adormecer.
.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009


É março ou abril?
É um dia de sol
perto do mar,
é um dia
em que todo o meu sangue
é orvalho e carícia.

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
Que nuvens olhas, ou colinas
altas,
enquanto afastas o rosto
das palavras que escrevo
de pé, exigindo
o teu amor?

É um dia de maio?
É um dia em que tropeço
no ar
à procura do azul dos teus olhos,
em que a tua voz
dentro de mim pergunta,
insiste:
Se te fué la melancolia,
amigo mío del alma?


É junho? É setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.



(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

(6) Um Mundo Pequeno


Passaram-se alguns dias, muitos dias talvez. Demasiados, para quem sentia o coração impaciente, a borbulhar como um caldo num caldeirão, latente, pronto a explodir a qualquer pequeno rastilho. Insaciável. Mas ali estava-se bem e aquele lugar sombrio e quente transmitia-lhe calma. Moly arrancara-o do torpor quando ele estava prestes a deixar-se afogar naquele mar de neve. Deixara-o ficar ali, na sua toca, até se recuperar. Pintas dormitava quase todo o dia enrolado sobre si mesmo, num amontoado de penas e feno que ela tinha arranjado. No seu sono via-se muitas vezes a contar as penas, a analisar cada cor e cada filamento, a sentir o seu cheiro, tentando encontrar alguma que lhe fosse familiar. Por vezes os seus sonhos transformavam-se em pesadelos e ele só via asas e garras e água, e acordava sem conseguir respirar. Nessas alturas, Moly encostava-se a ele para o acalmar, murmurando canções que falavam do seu mundo de grutas majestosas, de túneis infinitos e lagos de água negra cheios de pedras brilhantes como o sol, e ele voltava a adormecer tranquilo e perdido nesse mundo sombrio e mágico. Durante esses dias desenvolvera também uma estranha obsessão - dava por si constantemente a lamber-se. Lambia cuidadosamente cada centímetro do seu pêlo. Lambia furiosamente. Lambia como que a tentar limpar todas as memórias que lá viviam, enterradas no seu pêlo quente. Lambia como que a tentar encontrar uma réstia dos cheiros perdidos - do arroz-doce, dos juncos junto ao ribeiro, do limão, da areia do deserto...do peito dela. Depois parava, quase que de imediato, enquanto um pensamento lhe varria o coração. Sabia que nunca mais iria encontrar a sua Andorinha. Provavelmente não. Talvez se o mundo fosse mais pequeno, do tamanho de um bosque. E no entanto, quando pensava no pequeno coração dela, tão pequeno como um caroço de cereja, lembrava-se que muitas vezes também se perdia dentro dele.
Com o passar dos dias, Pintas foi reparando que Moly lhe parecia mais bonita, menos rude. Talvez fosse do sol que ela agora apanhava todas as manhãs quando ia a casa da senhora Coelha buscar-lhe uma taça de leite morno. Talvez fosse outra coisa. Aquele pêlo áspero e cinzento já não lhe parecia tão feio como no início, pelo contrário, agora dava-lhe um sensação de conforto e alegria. E já nem reparava nos dentes salientes que saiam pela boca que agora lhe cantava canções que o faziam sonhar. Afinal era até bem bonita, bonita no seu jeito engraçado de ser.
Um dia Moly chegou sem o leite morno mas com um pedaço de carne fresca nas mãos e o rosto meio pálido. "Hoje trago-te um petisco. Deixou-me com o estômago às voltas, mas achei que te daria ânimo para voltares ao teu caminho agora que o sol já começou a derreter a neve" disse-lhe ela. "Que maravilha!" exclamou o Pintas já lambendo os beiços, "onde arranjaste isso?". E Moly segredou-lhe ao ouvido como se lhe fosse contar o número de passos até um tesouro "dá sempre jeito ter um corvo branco como amigo!". E sorriu com toda a sua ternura.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

(5) Uma Luz na Escuridão

Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas.
Subitamente sentiu um pequeno tremor, depois um barulho que mais parecia um trovão a descer sobre a sua cabeça. Encostou-se rapidamente à parede no preciso instante em que um monte de pêlo lhe caiu aos pés com um baque seco. A luz entrou em cascasta cegando tudo. O que quer que fosse que estava ali à sua frente, tinha caído num dos buracos de respiração da sua toca, enchendo o túnel de neve fofa.
Pintas viu-se subitamente mergulhado no seu pior pesadelo - a neve gelada queimava-lhe a ponta do focinho e as patas e ele já não conseguia respirar. Sentiu umas mãos quentes a tactearem-lhe o corpo dormente. Subitamente foi puxado pelos bigodes até ao ar quente do túnel. Inspirou profundamente e tentou adaptar a visão àquela luminosidade. Ao seu lado, meio oculto pela sombra, estava um animal estranho...e, pensou ele, feissímo. Fez um esgar de repulsa - era uma mistura de rato gigante, coelho com dentes XL e marmota com unhas a precisar de manicure. Ele estava paralisado por aquela visão. Moly estendeu-lhe uma pata e disse-lhe num tom caloroso, meio fanhoso "Olá amigo, xê bem vindo".
Isto foi demais para os nervos do Pintas. Sentiu a cabeça a rodopiar ao mesmo tempo que a escuridão lhe invadia os olhos. O seu corpo cor de chocolate de leite caiu, pesado, para trás.
Moly, a toupeira, pensou com um ar desgostoso "Bolas, xerá que está morto?"

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Experimenta...


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



(Carlos Durmmond de Andrade)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

(4) Uma pata na neve, um espinho no coração

Espreitou por entre a folhagem do arbusto e viu no ar um rodopio das últimas folhas vermelhas que o vento arrancara do grande plátano. A chuva tinha começado a cair. Ele detestava água e tudo o que se parecesse com ela. Assim são os gatos e o Pintas, nisto, não era diferente. Sacudiu o pêlo já ensopado e sentiu um frio estranho. Voltou a enroscar-se, o focinho pousado sobre as patas, o olhar pousado nos pinheiros já nevados do outro lado do riacho. Fechou os olhos e respirou fundo, quase como um suspiro. Fechou os olhos e viu aquela capa de penas negras num corpito frágil de andorinha. Fechou os olhos e ouviu-a chilrear ao seu ouvido aquelas lenga-lengas que ela passava vida a dizer. Agora soavam-lhe estranhamente quentes e reconfortantes, embalavam-no. Na altura não conseguira entender. Mas claro, ela era um pássaro e a ele faltavam-lhe as asas para sonhar com a neve, branca como o peito dela. E como era bonito aquele peito, com pequenos fios prateados como que a desenhar um mapa do mundo, um trilho até ao coração. O frio fê-lo arrepiar. Vinha de dentro, do corpo vazio. Devia ter-lhe dito que não gostava de água. Devia ter-lhe contado que sempre sentira medo de ter medo, de falhar, de falhar a neve e tudo o que ela mais desejava. Devia ter-lhe dito que não era mais que um gato vadio, que correra meio mundo para ganhar aquela pelagem de rei, cor de chocolate de leite.
Apenas a chuva quebrava o silêncio do bosque, esvaziando-lhe o pensamento e deixando apenas duas breves ideias – ficar ali, enroscado, sem nada a esperar senão as patas secas e o regresso do bom tempo, ou partir. Partir para enfrentar a chuva, as poças no caminho, o frio que enregela os músculos, a neve alta que quase o fazia desfalecer só de pensar, partir para enfrentar o medo, partir para o calor dos olhos dela. Sim, o calor dela parecia-lhe infinitamente melhor que toda a pelagem seca deste mundo.

Amanhecer


O dia começa. Vejo ao fundo, sobre o rio, o primeiro tom azul-rosa a despontar. Ainda está escuro e o frio enche-me as mãos. Inspiro profundamente o fresco e o silêncio da madrugada que sempre me acalmam, deixando um torpor na alma e uma lucidez no corpo. É o que se quer – a anestesia.
Hoje não sei. Não sei nada. Mas hoje, particularmente, há uma dúvida enorme, um ponto de interrogação gigante dentro da minha cabeça, querendo alastrar para o resto do corpo como uma doença maligna.
Hoje nem sei. Nem sei se me viro a norte ou a oeste, porque a agulha da minha bússola interna não gira, ou gira descompassada como o meu coração. Giro sobre mim, e para cada lugar que olho vejo o mesmo – eternamente familiar, constantemente estranho. Ainda não pertenço aqui… sei que nunca irei pertencer aqui. Invade-me a amargura, aquele gosto agridoce deixado pelo tempo passado em lutas constantes, em mãos que dão e ficam vazias, em sentimentos que se mostram e não têm espectador. Com que sentido?
Leio num pacote de açúcar que me servem com o café, uma frase retirada de um livro de José M. Saraiva: “Que estranho destino é o meu que apenas me consente paixões ardentes e me faz esgotar em amores improváveis.”

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Hold on...


Há momentos, situações, coisas que vemos, que cheiramos ou provamos, segundos numa vida, que nos fazem ver claramente o que queremos para nós e aquilo que nos fará felizes.
Pode nem sequer ser aquilo que nos dá conforto nem segurança.
Pode nem ser o bom ou o correcto, de acordo com os padrões da nossa sociedade.
Pode até ser aquilo que sempre tentámos contrariar dentro de nós, mas que o nosso instinto nunca apagou da memória, nem do coração.
Mas é aquilo pelo qual sempre ansiámos, aquilo de que os nossos sonhos são feitos.
Há uma alma que sempre esperou que eu entendesse isso...e finalmente conseguiu.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A minha casa és Tu


A tua casa é algo entre névoas de onde se vê um rio. É algo ameno e confortável em que tudo se pode navegar. A tua casa é um sorriso que adivinho de cada vez que subo as escadas e te sinto do outro lado da porta.
A tua casa está sempre de entreluz por dentro e tem cheiros de boas vindas. E andas à minha frente, e eu sigo-te enquanto falas parecendo um pássaro a cantar e a dançar nas teclas de um piano.
A tua casa tem janelas que são os teus olhos âmbar onde está pintado um bosque até ao azul celeste. E há uma estrada de terra que atravessa o bosque e acaba num sítio que – se o visitarmos – decerto veremos que ali começa outra estrada, e sempre outra.
A tua casa cala-se quando o teu corpo forte se encosta ao meu, enquanto nos abraçamos e imitamos asas. Incorporamos a felicidade e nesse sentimento sincero há arquipélagos que se formam, através da erupção do nosso amor, no fundo do mar.
A tua casa é quando alimentamos a nudez pura com o desejo. Seguimos o trilho que nos leva à intimidade, com cuidado para acertarmos todos os passos de dança, no salão junto às roseiras.
A tua casa é a última estrela a apagar-se naquele bairro, todas as noites. Como se, mesmo depois do sistema solar ter desaparecido, nós continuássemos a reluzir. E há sempre calor e conforto e segurança e carinho.
A tua casa é o lar do meu refúgio nostálgico. Lá, vemos no tecto um pressentimento dos sonhos que sonhamos contra ele. Lá, não existe pranto de abandono, só o sorriso.
Tu és a tua casa e a minha casa és tu.

(adaptado de um poema de Daniel Paiva)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Da minha língua vê-se o mar

Finalmente!
Soltem-se as velas - amanhã vou partir.
Há uma ansiedade que me queima por dentro como um sol.
Não sei explicar... só sinto que é como nascer de novo após um longo sono ou poder finalmente respirar, encher o peito de ar frio e deixar-me levar pelo sonho.
Quero o chão, quero dar-me às ervas do caminho, quero ver tudo.
É isto que me faz feliz!


"Sento-me aqui, no centro do mundo, no local onde nascem e morrem as tristes ondas do mar, na rocha onde se perdem os restos salgados da nossa ambição e vontade de vencer que nos conduziram pelo mundo fora.
E, passados tantos anos, ainda vejo as naus, ainda vejo mar repleto de heroísmo comandado, à proa, por marinheiros destemidos com roupas esfarrapadas pela ambição.
Hoje, aqui estou, neste promontório de onde se vê o mar, a escrever na mesma língua feita de orgulho de todos os feitos que o meu povo conseguiu.
Luto, luto, luto, como se da minha língua visse eternamente o mar, como se este novelo da vida não tivesse fim, como se nas minhas mãos transportasse a glória e o orgulho de quem descobriu algo para além da escuridão do desconhecido.
Hoje, em cada recanto do mundo, existe um pouco daquilo que as nossas mãos foram capazes de construir, há ainda uma réstia do heroísmo, da valentia, da coragem e da simplicidade deste nosso povo português.
Afinal, apenas hoje descobri que fui feliz.
Quando o céu se pintava eternamente de azul e a vida parecia estar em cada uma das estrelas que me acompanhavam, quando os pássaros traziam nos seus bicos a magia de mais um dia, quando sorria e não sabia ao certo que sorria … era feliz.
Na verdade, a felicidade é apenas sorrir, sorrir e levar o mundo na palma da mão, sorrir e desbravar o mar com asas de sonho, sorrir e descobrir o mundo.
Por isso escrevo, escrevo tremulamente enquanto recordo, escrevo nas nuvens do céu, na areia do mar e nas folhas de papel a história de quem venceu, de quem se viu pequeno e ansiou tornar-se grande. * "


"Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir.
Da minha língua vê-se o mar.
Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.
Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação. ** "




(*) de Isa Mestre
(**) de Vergílio Ferreira

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Hino

A vida pode ser vivida de duas formas, como um fogo poderoso que tudo queima, destrói mas também regenera, ou como brasa que aquece lentamente, que conforta e, como incenso, perfuma e acalma.
Eu devia aprender a viver mais como brasa e menos como fogo, mas por mais serena que me sinta, por mais ensinamentos que beba, nem a idade me concede esse juízo.
Para mim a vida só me faz sentido assim - tudo tem de ser paixão, tudo tem de ser perturbador, não sei entrar nem sair de mansinho dos sítios onde deixo o coração!
A montanha que se quer mais alta, o amor que se quer arrebatador, a vitória que se quer sofrida... e caramba, como isto me enche de forças e ao mesmo tempo me esgota...

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia." (Martha Medeiros)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008



Um dia
nunca mais direi
um dia

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

(3) Flood, o corvo branco


Abriu uma asa e depois outra. Assim exposto à luz do dia confundia-se com o horizonte e com as copas das árvores brancas. Flood era diferente. Vivia sozinho no galho mais alto do pinheiro mais alto do bosque para lá do riacho. Ele gostava de erguer a cabeça para o céu e imaginar as formas que as nuvens criavam ao brincar com o vento. Depois fechava os olhos e deixava a brisa fria do outono sacudir-lhe as penas brancas.
Flood tinha o nome do riacho depois das chuvas, quando as águas transbordavam e arrastavam tudo. Flood também transbordava, de emoção, enquanto sonhava com as cores que não conhecia e com os cheiros por descobrir. Como um corvo criança, gostava de rodopiar no ar em grandes acrobacias, fazendo sorrir todos os animais do bosque, cheirando o ar, as cascas dos pinheiros, a neve fria. Ele cheirava tudo, desde as carcaças de que se alimentava, ao canto dos outros pássaros, e de cada vez descobria uma tonalidade diferente, um brilho interior, um novo contorno. Às vezes, com o seu apurado olfacto, descobria também uma ou outra doença nos animais que o consultavam. Era o médico do bosque.
Ao despertar, quando os primeiros raios obliquos da madrugada serpenteavam por entre os ramos, tudo lhe parecia novo e cheio de vitalidade. Flood não tinha medo, era um corvo destemido, forte como a corrente do riacho e livre como as suas margens. Olhava cada dia com todos os sentidos apurados, cada centelha de energia abria-lhe um novo caminho, uma nova visão. Ele amava a vida.
A andorinha chegou finalmente ao bosque nevado. Estava cansada mas feliz. Decidiu arriscar-se pelo pinheiro mais alto que encontrou - de lá conseguiria ver bem todo o horizonte e seria um bom sitio para se abrigar do frio e dos prepadores. Ao pousar no ramo mais alto sentiu que alguém a observava. Olhou em redor e só viu branco. Uma sombra agitou os galhos. A andorinha fixou o olhar e viu um grande corvo que se confundia com o céu. Susteve a respiração e fechou os olhos. Ele aproximou-se, encostou o bico ao corpo frágil dela e deixou-se ali ficar por um instante a absorver o cheiro das suas penas. Ela cheirava a arroz doce com raspa de limão, cheirava a areia quente e ao mesmo tempo a neve fresca. Lembrava-lhe o odor do riacho com salpicos de juncos. A andorinha ganhou coragem e abriu os olhos. O que viu deixou-a sem pio - a olhá-la estavam dois grandes olhos cor da cinza, da cinza de todas as fogueiras do mundo e sorriam para ela. Flood era cego.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Serenata inacabada


Não sei cantar. Mas não tenho medo.
Arriscaria uma serenata com a destreza de um tenor e o compasso de uma cubana.
Não, não tenho medo de dizer que o meu espírito se aquietaria se me abraçasses, enquanto me beijavas o cabelo ainda molhado.
Que o amanhecer saberia melhor se, ainda adormecido, procurasses a minha mão por debaixo do edredon.
Que diria baixinho "gosto de ti" quando me encostasse ao teu peito largo.
Não tenho medo de dizer que adoraria olhar para o teu rosto sério quando estás distraído, fazendo beicinho.
Que me sentiria protegida ao lado da tua altura, como um pássaro na palma da mão.
Que o passar dos dias me faria sentir que és a casa à qual gostaria de regressar todas as noites.
Não tenho medo de dizer que quando a tua boca se enchesse de um sorriso todas as estrelas nasceriam no céu e as trevas se desvaneceriam com vergonha.
Que me queria dar como algodão doce que se cola às mãos. Que olharia a vida com esse sabor, doce, num tormento de paixão.
Que o teu cheiro seria chuva e neve e sol, e que amadureceria tudo em mim como uma espiga de trigo.
Não. Queria não ter medo... de te chamar meu amor...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O homem que não conseguia chorar


Não tenhas pressa...
Tal como outras coisas nesta vida, chorar não tem hora marcada, e um dia chegará a tua vez, forte, sem te aperceberes como nem porquê.
Um dia, talvez, ao ouvires o vento a dançar com as folhas da árvore defronte da tua janela, ao olhares nos olhos azuis, sem fundo, de um recém-nascido. Um dia, no amor, durante aqueles breves segundos de êxtase em que deixas de ser só tu e és tudo: lençóis, ar pesado, estrela cadente ou corpo dilatado até ao infinito. Nesse momento em que já não conseguires reter nada dentro de ti, ai sim, chorarás como uma criança, profundamente e sem sentido. Expelirás, numa longa golfada, mágoa quente, alegria colorida, vingança fria, prazer animal, vitória saborosa, compaixão silenciosa e dor, toda a dor, negra como basalto.
Não tenhas pressa, digo-te eu, que chorar também nos consome e esgota, e é preciso tempo para repor forças e acumular essa seiva viscosa que nos corre pelas veias, como um rio sereno num longo entardecer.
Não tenhas pressa. Um dia a seca acaba e, com um trovão oco, começará a chover nos teus olhos verdes!


Para Miak

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Hoje doem-me as palavras,
demasiado pesadas para um corpo frágil
enchem-me até ao vómito
sufocam-me
e estou tão cansada...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pigmaleão

06h00:
Hoje acordei com o despertador
. Olhei para as horas fluorescentes no escuro do quarto e perguntei-me que dia da semana seria. Depois lembrei-me do que acabara de sonhar - que tinha ido caminhar para Gredos com o meu irmão. Com o meu irmão??... que não dá dois passos sem ser de carro. Mas lá estávamos os dois, no meio daquela cordilheira de montanhas a formar um anfiteatro.
(Deixo-me ficar mais um bocado de bruços na cama, a cara enterrada na almofada, a apreciar a paisagem já fria de Novembro em Espanha. Como um filme)
Será que já neva por lá? Bateu-me uma vontade tão grande de me por ao caminho...

06h17:
E foi assim que me levantei e me lembrei de uma canção: "The rain in Spain...". E com essa recordação veio outra - a de uma personagem na história do teatro que sempre me fascinou - Eliza Doolittle. A adaptação musicada ao cinema desta peça, na figura de Audrey Hepburn e da canção é, ainda hoje, uma deliciosa recordação de infância. E, no entanto, esta recordação foi-se alterando com o tempo, na sua essência, no significado da história.
(Olho-me ao espelho. A rebeldia que me sai pelos cabelos e que nem a água lava. Como um grito)
Eliza era uma jovem florista de um bairro pobre, que se vê metida no meio de uma aposta de amigos. Henry Higgins aposta que a consegue fazer passar por uma mulher refinada da alta sociedade, ensinando-a a falar e a vestir correctamente e treinando-a na arte da etiqueta. Mas por mais que Eliza mude, nunca atinge os padrões de perfeição impostos por Henry, acabando por se tornar quase irreconhecível a ela própria. A flor mulher vai definhando pela opressão. Apesar de crescer entre eles uma afeição profunda, Eliza acaba por rejeitar Henry e a sua maneira dominadora e misógena de a tratar.

06h29:
No fim, Eliza percebe que já não pertence a nenhum dos dois mundos que conhece - os ricos não a aceitam como uma deles e ao mesmo tempo não pode regressar ao mundo que deixou para trás.
(Debico o pão com manteiga, de pé junto à bancada, enquanto penso no que dirás quando me vires hoje. Como um desejo)
Esta história que começa com o ideal de Gata Borralheira acaba, de certa forma, a recriar o mito Frankenstein.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Coragem Amor Mudança


Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um não. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...


(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Yes We Can!


Hoje acordei à 1h30 da manhã e liguei a tv. Ainda só projecções. Depois às 6h00 e a tv já mostrava o futuro presidente dos EUA.
Nunca uma eleição noutro pais me interessou tanto, pela conjuntura económica e política, mas sobretudo pela esperança de mudança social que este homem carrega.
Que mude a forma como os jovens americanos negros olham para si e para os outros, que permita uma maior integração racial numa sociedade ainda tão racista. Que os incentive a ambicionar, a lutar, a evoluir e a orgulharem-se de ser quem são.
Que mude a forma como paises anti-americanos olham os EUA e permita novas cooperações, menos guerras, maior democracia e menos totalitarismo.
Nos dias de hoje é preciso alguém que faça a diferença - que seja Barack Obama e todos os que votaram nele.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

(2) Pintas, o gato que gostava de arroz doce

O dia tinha nascido bonito. O sol iluminava o riacho e a andorinha, do alto do limoeiro, gostava de olhar os peixes a nadar no fundo. Pensou para si que um dia também iria saber fazer aquele bailado sincronizado, mas a voar claro. Via as achigãs verdes a debicar à tona da água, os girinos velozes em acrobacias por entre os juncos submersos, ouvia a cantoria das rãs e ao longe o planar silencioso de um milhafre. Esconde-te rã, esconde-te depressa, pensava a andorinha. Abriu os olhos e lembrou-se que tinha ficado de ir buscar umas raspas de limão para fazer arroz doce para oferecer. O Pintas, gato diferente, gostava de limão e mais ainda de arroz doce com limão. O que é que andaste a fazer durante tanto tempo? Andas sempre com a cabeça na lua! - disse o Pintas. A andorinha, triste daquele azedume mais azedo que o limão, não respondeu. Afastou-se para junto da panela e juntou as raspas de limão ao arroz que já estava doce e ficou ali, enroscada ao lume, a aquecer-se. Sentia um frio estranho. Fechou novamente os olhos e pensou no riacho e no vôo do milhafre. Queria tanto voar assim, planar silenciosa até ao deserto, ou apenas até à floresta do outro lado do riacho onde nunca tinha estado. Sabia que lá já nevava pois via as copas das árvores pontilhadas de um branco igual ao seu peito. Colo de Garça era como lhe chamavam. O Pintas não o sabia. Nem nunca lhe tinha perguntado. A andorinha aproximou-se dele e pediu-lhe para a levar no seu dorso até à floresta. Ela gostava tanto de ver a neve e haviam de ficar bem os dois a passear, ele cor de chocolate de leite e ela negra, com o peito a condizer com aquela imensidão branca.
- Achas?! Passas a vida a sonhar e estás sempre a fazer-me perguntas estranhas e inconvenientes. Acho que nem gostas de mim! - disse o Pintas com uma careta.
- Quero conhecer-te! - disse a andorinha.
- Dhaa...- taramelou o Pintas.
- Então eu vou, sozinha, quero arrepiar as asas no fresco da neve.
- Não vais conseguir voar, tens uma asa mordida! - troçou ele.
- Tão certo que consigo, como aquele arroz doce que consegui fazer por ti, mesmo com esta asa mordida. - disse a andorinha segura de si.
- Que te aqueça e adoce o coração.
- Eu vou. Adeus! - disse ela com um sorriso a nascer no bico.
Abriu as asas e levantou vôo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

:-)

.
Há quem sonhe com coisas que aconteceram, e explicam porquê.
Eu sonho com coisas que nunca acontecerão e pergunto: porque não?


terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Ríete de la noche,
del día, de la luna,
ríete de las calles
torcidas de la isla,
ríete de esta torpe
muchacha que te quiere,
pero cuando yo abro
los ojos y los cierro,
cuando mis pasos van,
cuando vuelven mis pasos,
niégame el pan, el aire,
la luz, la primavera,
pero tu risa nunca
por que me moriría."

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

(1) A andorinha que sabia a leite morno


Era uma vez uma pequena andorinha de olhos verdes, peito branco como a manhã e asas cor de carvão.
Ela gostava de ouvir os seus amigos contarem histórias das suas viagens pelo mundo. Um mundo repleto de outros seres alados, gigantes que reluziam ao sol, um mundo onde o ar tinha um sabor diferente, um mundo de terras cobertas por areia amarela muito fina que se entranhava entre as penas, um mundo de um verde tão infinito que tinham de voar durante meio dia para o atravessar. A pequena andorinha ouvia e sonhava. Ouvia e esperava a sua vez de abrir as asas e poder partir também à aventura. Mas havia um medo que a consumia - um dia um gato mordera-lhe a asa e desde então ganhara uma desconfiança para com aqueles seres de quatro patas e uma inabilidade para levantar vôo.
O Pintas chegou num quente dia de Setembro. Lampeiro, gingão, olhos cor de âmbar e sorriso difícil. O Pintas era um gato, como o nome indica, com pintas. Duas apenas, abaixo do queixo, brancas como a manhã e um pelo sedoso cor de chocolate de leite. A andorinha, que até gostava de chocolate, olhou desconfiada para aquele gato. Mas algo nele lhe lembrou o mundo do verde e da areia. Algo nele cheirava a mar e a erva cortada e a fazia voar. O Pintas, que andava sempre de olho nas árvores à procura de um petisco, viu a andorinha a espreitar por detrás de um ramo de limoeiro. Olhou com desdém. Mas algo naquela andorinha lhe lembrou o sabor do leite morno, do cheiro da erva-gateira onde ele gostava de se roçar. Algo nela lhe aquecia o pelo como um banho de sol ao início da tarde. Ele sorriu. E ela, por um breve instante, não sentiu medo.
Não tardaram a meter conversa. Ela sempre no limoreiro. Ele deitado na relva a olhá-la. Falavam dos sonhos ou dos desejos que há muito tempo tinham presos na garganta e na alma. Mas o preconceito também vive entre os animais, entre os gatos, por exemplo, pois deles se diz que são a criação mais perfeita de Deus. Toda a gente sabe isso, e o Pintas sabia-o. Ele, que nunca tinha conhecido uma andorinha de asa mordida por um gato, cortejava-a desajeitadamente - passava a vida a dizer-lhe que ela tinha uma asa torta. A andorinha, doída na asa e agora doída no coração, do alto do limoeiro e do seu orgulho, pensava com quantas forças tinha, que nunca se apaixonaria por aquele gato... mas já era tarde demais.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Tarte de pêra aquece o coração


Ouço ao longe um helicóptero a esvoaçar como um corvo negro a anunciar o destino. Detesto o barulho dos helicópteros e a sua estúpida mania de prever tudo, o trânsito e a vida das pessoas.

Hoje acordei com frio, um frio tão profundo que não nasce das frentes frias mas da dureza. Um frio que corrói como a ferrugem, pouco a pouco, a lucidez e o coração. Um frio que me dá saudades de ti e ainda nem partiste. Sabes o que eu mais queria? era partilhar esse pedaço de calor que ainda existe dentro de ti, pequeno mas doce como um caroço de pêra.

Olho-te e vejo uma criança perdida aos tropeções dentro de ti. Não foi o caminho para casa que esqueceste, esqueceste foi de construir a casa. Penhoraste o coração, e há coisas que não se pagam, nem trocam, nem se conjugam nunca - dão-se de graça!
Dou-te a minha mão e um beijo... não peço nada em troca, só quero ver esse caroço estrela a iluminar-te o caminho.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008


Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.
.
.
(Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Estender a mão e não passar indiferente


Um jornal catalão escrevia ontem que menos de 1% do valor conjunto que a União Europeia e os Estados Unidos injectaram no mercado financeiro para conter a crise, seriam suficientes para acabar com a fome em África.
Dá que pensar.

"Deus deu-nos duas mãos. Uma para nós mesmos e outra para os outros" (Audrey Hepburn)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje e sempre, sê feliz também

Tu que és Grande, não em altura mas em pensamento e acções.
Tu que és Doce e sombrio ao mesmo tempo.
Tu que és Homem forte, lobo valente, ave livre, flor sensível.
Tu que tens o Belo por detrás do monstro
Tu podes ser feliz...

Olha a tua "Rosa"

Antoine de Saint- Exupéry escreveu: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
Nesta sociedade, em que quase tudo é descartável, inclusive o afecto, esta frase pode parecer extremista e descabida. Hoje em dia ninguém se quer responsabilizar por nada: se o emprego é exigente muda-se de emprego, se a árvore tapa a vista da vivenda corta-se a árvore, se os pais estão velhos e chatos enfiam-se num lar, se a mulher não é loura e boa arranja-se uma miúda de 19 anos.
Hoje em dia ninguém se esforça por entender e aceitar os outros (ou as coisas) como eles são e valorizá-los por isso. Já não sabemos nem queremos ver a sabedoria por debaixo de uma cara cheia de rugas, nem a doçura que esconde um sorriso envergonhado ou a dignidade por detrás daquela postura séria.
Hoje, optamos por criar tudo à nossa imagem - não gostamos de pessoas, mas sim da imagem que queremos criar delas, e quando essa visão não atinge a perfeição desejada ou não se deixa enfeitar como queremos, passa-se adiante e atira-se para o lixo em vez de se "reciclar".
Esquecemos frequentemente que no meio dessa imagem distorcida que muitas vezes temos dos outros, está a imagem de nós próprios que não queremos enfrentar.
Esquecemos que é preciso humildade para entender, para opinar, para julgar, para dar e para receber.
Esquecemos que só olhando para os nossos defeitos em vez de julgar os dos outros, poderemos partilhar plenamente a nossa vida com grandes homens e mulheres.

Exupéry escreveu também: "só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos".

"(...)E foi então que apareceu a raposa.- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.- Que quer dizer "cativar" ?- É uma coisa muito esquecida. Significa criar laços...Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. Eu não tenho necessidade de ti e tu não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, teremos necessidade um do outro. Serás para mim, único no mundo. E eu serei para ti, única no mundo. A minha vida será como que cheia de sol." (in O Principezinho)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Castelos de Areia

"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.

Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida - mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.

Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!"

(de João Pereira Coutinho, Jornalista)

Quero a doçura da calma
quero o simples mas belo
quero ouvir
quero que me escutem
quero as montanhas azuis
ou brancas
e uma casa de onde possa olhá-las ao amanhecer
quero a partilha
quero o silêncio
para ouvir o bater de um coração
quero um sorriso
que me faça sorrir
quero respirar fundo
e encher-me de tranquilidade
quero que tudo se renove mas
permaneça constante no meu coração
quero o desafio
quero que me entendam
quero dar e estender a mão
quero um colo
quero olhar nuns olhos
que me façam sonhar
sem medo, sem pressa
quero um beijo ao fim de um dia cansado
quero aprender
quero acreditar em alguém
e que alguém acredite em mim
quero um farol,
uma luz que me guie
quero uns passos com quem vencer o caminho
lado a lado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Respirar fundo


"Sempre que, à medida que fores crescendo, tiveres vontade de converter as coisas erradas em coisas certas, lembra-te de que a primeira revolução a fazer é dentro de nós próprios, a primeira e a mais importante. Lutar por uma ideia sem se ter uma ideia de si próprio é uma das coisas mais perigosas que se pode fazer.
Quando te sentires perdida, confusa, pensa nas árvores, lembra-te da forma como crescem. Lembra-te de que uma árvore com muita ramagem e poucas raízes é derrubada à primeira rajada de vento, e de que a linfa custa a correr numa árvore com muitas raízes e pouca ramagem. As raízes e os ramos devem crescer de igual modo, deves estar nas coisas e estar sobre as coisas, só assim poderás dar sombra e abrigo, só assim, na estação apropriada, poderás cobrir-te de flores e de frutos.
E quando à tua frente se abrirem muitas estradas e não souberes a que hás-de escolher, não metas por uma ao acaso, senta-te e espera. Respira com a mesma profundidade confiante com que respiraste no dia em que vieste ao mundo, e sem deixares que nada te distraia, espera e volta a esperar. Fica quieta, em silêncio, e ouve o teu coração. Quando ele te falar, levanta-te, e vai para onde ele te levar."

(Susanna Tamaro in Vai onde te leva o coração)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

As marcas que deixamos no caminho e que o caminho deixa em nós


"Caminhante, as tuas pegadas
São o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
O caminho faz-se ao andar.
Ao andar faz-se o caminho
E ao olhar-se para trás,
Vê-se a senda que jamais
Se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Somente sulcos no mar."
.
.
(do poeta espanhol Antonio Machado)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sem palavras

Eu, portuguesinha de gema e branca como o Omo, senti-me indignada com este cartaz, revoltada até.
Há muitos anos atrás a minha mãe, assim como outras tantas mães e pais portugueses, também foi emigrante pelas terras de França, também esteve ilegal, também fez o trabalho que a maioria dos cidadãos franceses não queriam fazer.

Hoje, em Portugal, a mão de obra emigrante é sem dúvida uma mais valia para a nossa economia, quer se queira quer não. Aqueles que cá chegaram para ganhar o dinheiro que lhes permita dar uma vida melhor a si e às suas famílias; aqueles que estão longe dos que falam a mesma língua; muitas vezes sós e desenraizados; na maioria das vezes sujeitos a tratamento desigual e em más condições de subsistência; são aqueles que fazem o trabalho que nós portugueses não queremos fazer.

Na questão da emigração, como em muitas outras, existem coisas boas e más. Mas dai a dizer que a culpa da crise e da violência em Portugal é dos emigrantes (e não do excessivo endividamento, em tempo das vacas gordas, para podermos ostentar aquilo que na realidade não precisamos) é uma tremenda ignorância.

Ao ver este cartaz, lembrei-me que há muitas décadas atrás numa Alemanha também mergulhada na crise, nasceu uma ideologia que fez de um determinado povo o seu bode expiatório e que acabou na morte vergonhosa de milhões de pessoas.

domingo, 5 de outubro de 2008

Apetece-me sonhar...



sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O sonho comanda a vida

Cresta final do Castor (4.228 mt)

Eu bem tento manter-me longe das alturas por razões de saúde. Tento não pensar nas montanhas nevadas, nem no sabor da descoberta e da conquista, mas não consigo. Quando me afasto física e mentalmente das montanhas, passo os dias triste e melancólica. Fico desorientada e sem saber o que vou fazer a seguir ou o que vai ser de mim, pois deixo para trás aquilo que se tornou o meu objectivo de vida. Parece um bocado exagerado, mas esta é a verdade - quando me afasto das montanhas fico só...e sinto-me só.
É nestes momentos que percebo o bem que este desporto me faz e como me deixa feliz. Por isso resolvi voltar a pensar nas montanhas, a sonhor com elas pelo menos. Com passinhos de lã, comecei novamente a treinar.
Embrenhada neste pensamentos acabei por descobri ontem duas montanhas espectaculares, num sítio onde estive há 3 anos atrás - Zermatt... e voltei a sorrir :-)

Breithorn e Castor, duas montanhas nos Alpes!

Breithorn (4.164 mt)

Liskamm, Pollux e Castor

Vale de Zermatt

Face Norte do Breithorn

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

À Janela


Quem quer que sejamos deste lado, no éter ou no limbo da fibra óptica, nós mesmos ou a imagem do que gostariamos de ser, o certo é que se vão criando ligações e hábitos tão rotineiros como os do dia a dia.
É por isso que algumas das pessoas com quem me cruzo neste espaço digital, acabam sendo como um grupo de amigos que me visita em casa ou com quem tomo um café ao fim do dia.
Não interessa se vivem em Lisboa, em Leiria ou do outro lado do atlântico, se falam português ou espanhol. À distância de um bit falamos todos a mesma linguagem e vivemos todos no mesmo quarteirão, com os nossos sonhos, as nossas dúvidas e as nossas buscas.
A companhia uns dos outros acaba sendo algo bom e com que contamos, mesmo que não seja mais que uma visita virtual, porque muitas vezes isso basta.
Não é uma substituição do real pelo ilusório, é apenas o reinventar de uma forma de comunicação, de aprendizagem, de admiração e até de amizade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

"Os guerreiros da luz reconhecem-se pelo olhar.
Estão no mundo, fazem parte do mundo, e ao mundo foram enviados sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem correctamente.
Os guerreiros da luz sofrem por tolices, preocupam-se com coisas mesquinhas, julgam-se incapazes de crescer.
Os guerreiros da luz, de vez em quando, crêem-se indignos de qualquer bênção ou milagre.
Os guerreiros da luz, com frequência, interrogam-se sobre o que fazem aqui.
Muitas vezes acham que as suas vidas não têm sentido.
Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque se interrogam.
Porque continuam a procurar um sentido. E acabarão por encontrá-lo."


(Paulo Coelho in Manual do Guerreiro da Luz)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Perfil


Porque hoje está um dia bonito.
E tenho vontade de cantar.
E sinto que dentro deste corpo não cabe nem metade do que sou,
nem do que tenho para dar.
Porque há um sorriso no meu rosto com sabor a fruta madura
Rebelde, gato bravo, anjo que ganhou asas.
Se um pássaro voar sobre a tua cabeça, sou eu!


"Não.
Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida."

(Miguel Torga in Diário XIII)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Estou aqui e não estou em lado nenhum.
A minha cabeça passa o tempo todo a vaguear noutros lugares,
como um balão ao qual cortaram a guita.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

Mágoa

não me fales da neve.
não me fales das pedras que apanho, nem do orvalho na giesta
não me fales das fragas, dos cavalos selvagens, nem das lagoas nos prados
não me fales das montanhas brancas que tocam o céu ou do ar rarefeito nos meus pulmões
não me fales dos risos pelos trilhos nem das mãos que se tocam
não me fales do pó, nem do calor, nem da sede ou dos poços nas hortas
não me fales da carqueja amarela, nem da casa dos nossos sonhos
não me fales da bruma no caminho, do pão ao almoço ou das árvores que trepo
não me fales das botas que moveram montanhas, nem das montanhas que moveram a minha vida
não me fales da neve...não digas nada.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Felicidade, Prazer, Dor e Amor


Que bom que é sair do cinema com aquela sensação de algo ganho, de algo que se aprende, que nos surpreende ou nos faz pensar.
Assim foi ontem com o
"O Ar que Respiramos".

Filme brilhante na realização e na interpretação (com um elenco de luxo - Kevin Bacon, Forest Whitaker, Andy Garcia, Sarah Michelle Gellar, Brendan Fraser, Julie Delpy, Emile Hirsch).
Baseado num provérbio chinês que divide a vida em quatro emoções principais: a felicidade, o prazer, a dor e o amor; este filme narra quatro histórias, ou quatro vidas, todas elas interligadas.

A não perder!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008


Há quanto tempo reténs a respiração?
Há quanto tempo dura o mergulho nesse oceano
que é agora a tua vida?
Terá valido a pena trocares o vendaval
pela calmaria do azul profundo?
Foi isso que te fizeram prometer?
Foi esse o preço que pagaste?

Lucille Maud Montgomery disse "pagamos um preço por tudo o que obtemos neste mundo, e embora valha a pena ter ambições, a sua conquista nunca é barata".
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sábado, 13 de setembro de 2008

Como um mergulho no escuro

"8850 metros de altitude: não faço ideia do que seja, não imagino o que se possa sentir. Sei apenas que há-de ser algures, física e emocionalmente, o lugar mais próximo dos deuses que os homens podem alcançar aqui na terra. Sei que deve ser um lugar de abismos e de espantos, de sonho e de demência, vago, impreciso, envolto em névoa e em pavor e, todavia, ali mesmo ao alcance do derradeiro esforço.
A solidão é a marca dos grandes viajantes, dos obstinados, a doença da lucidez. A solidão é o primeiro e o último desafio do homem e começa sempre, sempre, por um referente físico, que funciona como um limite: pode ser um limite vertical, como na montanha, pode ser como no mar um limite de profundidade, ou pode ser como no deserto um limite horizontal.
Além, no cume da mais alta montanha, no fundo do mar onde a luz já nao entra ou na vastidão de areia onde a violência da luz apaga todas as arrogâncias, estamos sós, irremediavelmente sós. Nenhum passo caminha atrás do nosso passo, nenhum eco reproduz a nossa voz, nenhuma mão se estenderá se o vazio ou o abismo engolirem o nosso desafio aos deuses.
Mas, na verdade, há viagens sem regresso, há coisas de que nunca mais se volta, ainda que se esteja aqui, agora."
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(A Mais Alta Solidão - prefácio de Miguel Sousa Tavares)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Grandes Homens e Mulheres

Que há muita coisa mal, que este mundo está do avesso por valorizar mais o futebol de milhões (pessoas e euros), e que estes actos deveriam servir de exemplo para todos nós que vivemos agarrados ás nossas pequenas mazelas, já nós sabemos.
Mas hoje só me apetece falar de coisas boas - Portugal conquistou ontem duas medalhas nos Jogos Paralímpicos Pequim 2008. O interessante não é tanto saber se são de ouro, prata ou bronze, mas sim por quem foram ganhas - João Paulo Fernandes e António Marques.

Para mim é uma alegria, uma motivação e um motivo de orgulho ver que pessoas com deficiências, algumas delas severas, consigam superar tantos obstáculos, não só físicos como também de apoios financeiros, logísticos e até mediáticos, e mesmo assim obter bons resultados e dignificar o nosso país.

Ontem vi atletas nadar sem pernas ou só com um braço, correr com descoordenação motora ou em cadeira de rodas, invisuais a velejar... Ontem a minha filha, na sua tenra idade, disse "mãe, disto é que nos deviamos orgulhar e divulgar", e ela tinha razão.

Parabéns a todos estes grandes homens e mulheres!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Is there sand in my eyes?

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.(...)
E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido."


(in "Kafka à Beira Mar" de Haruki Murakami)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Um espírito inquieto

  1. Como é o teu espírito? Empreendedor, corajoso, fraco, revolucionário, oportunista, acomodado, …?
    O meu, é sobretudo um espírito inquieto.
    Mas esta inquietude cansa e desgasta. É assim que me sinto muitas vezes.
    Dou-me conta que passo o tempo em busca de algo, numa permanente insatisfação. Sou “perguntadeira”, sou curiosa, anseio por aprender, por descobrir tudo, numa sofreguidão de esfomeado – o que lês, porque o lês, o que sentes, em que momento, qual o sonho, onde dói? E em cada descoberta, no meu espírito, fica sempre um espaço por preencher, uma lacuna que me leva a querer aprender e descobrir mais e mais. Nada tem um fim, nada se ordena, vivo em desassossego. E hoje estou tão cansada.
  2. O meu sonho - queria viver no campo, ter animais, ter uma horta, estar perto das montanhas – é tão simplista que dou por mim a pensar que só posso estar a ficar louca. Ninguém quer viver no meio do nada e ainda por cima ter de cavar batatas.
    Nesta cidade, no meio da confusão do dia a dia, da hipocrisia de muitas vidas, das falsas aparências, da bebedeira do “vende-compra-consome”, esta minha loucura é solidão.
    É por isso que quando encontro alguém que partilha o mesmo tipo de sonho, fico feliz, porque sinto que não estou só na minha loucura. É reconfortante saber que há alguém por ai que sente o mesmo que eu e aspira a algo parecido.
    Afinal, talvez não seja nenhuma utopia.
    Afinal, deve haver um sítio onde as pessoas possam ser verdadeiramente elas.
  3. Esta manhã apanhei o comboio das 7h21, coisa que não fazia há um par de anos. Sentei-me. No banco à minha frente ia um casal que reconheci de imediato. Olhei bem e lembrei-me. Eles estavam sentados nos mesmos bancos de há 2 anos atrás, exactamente no mesmo local – um de frente para o outro, ele a ler um livro, ela uma revista cor-de-rosa. Será possível que nada tenha mudado naquelas duas vidas? Que os horários do comboio não tenham mudado, que outras pessoas não tenham vindo ocupar aqueles lugares, que não se tenham divorciado? Não. O nosso corpo muda, as células envelhecem, mas tudo à nossa volta permanece imutável, como o ir e vir das estações do ano. Pensei para mim “Será que na realidade alguma coisa, alguma vez, muda?”, e depois dei-me conta que também eu estava sentada exactamente no mesmo banco que ocupava há 2 anos atrás!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Tocar o céu

O que penso quando subo uma montanha?!
Tudo começa muito tempo antes, antes sequer de estar junto à montanha. Nos meses que antecedem a escalada, em casa, a ler os mapas e os relatos de quem já fez aquela jornada e a ver as fotos em revistas da especialidade.
E com o sonho nasce o entusiasmo.
Quando dou por mim, o meu espírito já está a 3.000 mt de altitude, enterrado em neve até aos joelhos.
Sem nunca lá ter estado, os meus olhos conseguem desenhar o trilho e fazer um filme completo e a cores de todo o percurso, das paisagens, e até do esforço a dispender.
Em última instância, é esta vontade e entusiasmo que me mantêm viva, por dentro e por fora.
Uma vez um amigo chamou-me visionária e eu não entendi o que isso queria dizer, nem me reconheci em tal expressão. Ele depois explicou-me que isso significava que eu conseguia visualizar as coisas e as situações muito antes de as ter experimentado.
Perante isto, seria de esperar que eu achasse o montanhismo desinteressante, não fosse eu não me contentar só com o sonho. É preciso concretizá-lo.

Assim, para mim subir uma montanha é reconhecer um caminho. É olhar cada pedra com admiração, cada bloco de gelo com a adrenalina a correr velozmente nas veias, cada cume com respeito.
Pé ante pé, é isso que me impulsiona, que me dá força e me abstrai da dor.
Consegui chegar ali. Consegui superar as minhas fraquezas e tornar real algo que até ali só existia na minha imaginação.
E no cume, respiro pela primeira vez. Abro bem os olhos. Tudo o que vejo me enche por dentro e sou neve, rocha, nuvem e pássaro – o êxtase deve ser isto.
Estendo a mão, toco o céu, e por um breve instante sou parte de Deus.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Primeiramente

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"Night has brought to those who sleep, only dreams they can not keep."
(Enya - Paint the sky with stars)
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Acordo sem o contorno do teu rosto na
minha almofada, sem o teu peito liso e claro
como um dia de vento, e começo a erguer a
madrugada apenas com as duas mãos que
me deixaste, hesitante nos gestos, porque os
meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela
te procuro, encostado ao teu nome, pelas
ruas álgidas onde tu não passas, a solidão
aberta nos dedos como um cravo.

Meu amor, amor duma breve madrugada
de bandeiras, arranco a tua boca da minha e
desfolho-a lentamente, até que outra boca -
e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos
pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e
perguntar o que aconteceu.

(Eugénio de Andrade)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O lado inclemente da Montanha


Mais uma tragédia. Eram 3h da madrugada de domingo quando um bloco de gelo com 200 metros de altura e 50 de largura se abateu na parte Norte do Monte Branco. O acidente ocorreu a 3.600 metros de altitude, num itinerário muito utilizado por alpinistas e surpreendeu um grupo em plena subida.
Pelo menos cinco Austriacos e três Suiços continuam desparecidas após terem sido arrastadas pela avalanche ocorrida na parte francesa do Monte Branco, tendo no entanto sido recolhidos pelas equipas de salvamento 10 alpinistas, sete dos quais ainda hospitalizados.
Um pesar pelas vidas que se perderam.
(fonte: Euronews)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O Zen da Montanha

George Mallory, o lendário alpinista britânico, que pode ter subido o Everest 30 anos antes que Hillary, resumiu o chamamento da montanha "porque está ali", explicando deste modo a sua ansiedade pelo cume.
Esta expressão "haiku" de Mallory guarda um mundo vastíssimo. Os “haikus” são uma forma ancestral de poesia, que soam mais a uma verdade que a uma resposta.
Perguntaram a Matsuo Basho (um ilustre poeta de haikus) o quê era a iluminação. Ele respondeu que não se tratava de procurar a verdade, mas sim de estar nela. E para estar nela devíamos ser impecáveis: "Viemos para ser criadores, não vítimas; a expressarmo-nos, não a nos esconder. Na justa medida. No gesto impecável".

O gesto impecável leva ao centro, e o centro leva ao gesto impecável... E ao estar presente. Esse é o Zen de subir montanhas.

O gesto não é só um movimento de subida ou descida, é também uma atitude. O gesto também depende de nossa relação com o que representa para cada um as montanhas. O gesto traduz ritmo, traduz a nossa capacidade para decifrar as mensagens próprias e as da natureza ao redor, por exemplo, a tremenda decisão de subir ou não. Alcançar a impecabilidade no gesto é a essência, e o ritmo é fundamental.

Dizia Pio XII a alguns congressistas alpinos: "A lição da montanha é uma lição de elevação espiritual; uma lição de energia moral mais que física".

O montanhismo é uma escola integral do ser, cujas qualidades podem ser o remédio para os filhos do progresso, aprisionados na comodidade e na indolência do sedentarismo. Uma escola muito antiga. Que nos liga com o aqui e o agora. Porque o tempo sempre é presente. Os meditadores antigos chamaram à consciência do presente "dián", e seu caminho "Zen", o caminho do êxtase e da iluminação.

"O gesto não é só um movimento de subida ou descida, é também uma atitude".

(Excertos do texto retirados de http://altamontanha.com/)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Com os meus olhos cheiro o mundo

Sabes qual é a relação entre os nossos dois olhos?
Eles nunca se veêm um ao outro... e no entanto
eles pestanejam juntos, eles movem-se na mesma direcção,
eles choram juntos, eles adormecem lado a lado.
... talvez a amizade pudesse ser assim!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Até aos cumes


Não desisto nunca... haverá sempre algo novo para descobrir
e para aprender!
Arriscar é preciso. Acordar para o mundo é preciso!


"Lança a tua luva aos pés do Desespero, e verás que não aceita o desafio. Sê - conforme a seiva que tiveres - e vencerás. Levanta-te das pedras que te feriram e deixa que o teu sangue as envergonhe. Não troques nunca o teu sorriso pelas lágrimas, se o anelo do fácil te segredar: "Basta!"

Constrói-te com paciência até aos cumes, e não invejes a gente da planície. Não hesites nunca na Amizade pura, pois tu és o guardador de teu Irmão.

Ama - em Branco, em Grande e em Bom - e terás asas. Desprende-te de quem te retiver por prisioneiro, mas não recuses a mão ao afogado. Compromete-te para sempre com a Esperança, e ela te dirá que és um Menino.

Encara a vida de frente e com ternura. Entende, longe e quente, meretrizes, banqueiros, calafates e ministros..., e todos buscarão o teu segredo.

E se a quadriga moça do teu corpo freme - porque és Homem, porque és de barro, e porque és fraco - puxa as rédeas, meu valente, até à espuma, mas não te esqueças de que é pela Via-láctea que tu corres."

(Maria Lucília Bonacho)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

You can't Break me...I'm already Broken


"I picked up the pieces of my broken ego and
I have finally made my peace as far as you and me go..."
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(Good day - The Dresden Dolls)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Gerês


"Como eu sei que tu adoras o Gerês, não quero deixar de te mandar algumas fotos de lá, para recordar e sonhar.
... Consultei a montanha impregnada dos teus passos e o que ela me disse é que a paixão é dor, ansiedade, necessidade, desejo...incontrolado e absurdo, é no fundo a negação do amor.
Quando cheguei a meio da serra da peneda e dou de caras com aquela rocha enorme no meio do nevoeiro, com todas aquelas fissuras, toda aquela imponência, todos aqueles passos... possíveis de serem descobertos. Agradeci estar ali, para contemplar aquela obra do acaso universal, agradeci tambem a força, a vontade, os amigos e a oportunidade de viver."

(Carta e foto de Carlos Martins, um grande amigo regressado ontem do Gerês)
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Eu adoro realmente o Gerês, é uma serra (ou várias) lindíssima, cheia de contrastes, de prados verdes, de fragas imensas, de lagoas de água cristalina e gelada, de garranos, de "planetas de macacos" e árvores petrificadas, de azevinho. Mas para mim o Gerês é sobretudo algumas das pessoas que lá conheci, as suas vidas e experiências, a sua percepção da serra, os seus silêncios e risos, e aquela massa com carne saboreada sob a luz das estrelas.
O Gerês é também o pedaço do coração que fui deixando por lá...

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Bom fim de semana :-)

Há dias em que a vida nos dá uma trégua
da loucura dos dias
que tudo se conjuga para nos deixar felizes
o telefone que toca, um amigo que fala,
o elogio que me fazem e o carinho que me enche a alma
um projecto que avança, um sonho que fica mais perto
o colo que me oferecem com amor, mesmo que longe
um beijo sonoro na despedida
o fim de semana grande que se aproxima
Há dias assim...há dias em que a vida nos dá uma trégua, e hoje é um deles!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

(apesar de tudo, há ainda)
um sorriso por detrás de uma lágrima...
...dentro de mim

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O caminho, a bússola, o dragão e o coração


Onde me leva este caminho que percorro? Ando a fugir ou a conquistar o mundo? Que procuro nesta busca constante, nesta insatisfação?
Nos momentos de perdição, quando não sei qual o norte, olho a bússola que tenho à cabeceira. Olho-a na esperança de ter um sinal, mesmo que breve, do que me espera, mas há um silêncio majestoso a vibrar do alto da sua agulha, como que a dizer “... deixa-te encontrar”.

Tento aceitar a vida, o que ela me oferece. Tento ser calma, paciente. Composta e integrada. Mas cá dentro, bem cá no fundo do meu coração há um borbulhar constante de ondas, de neve a cair, de caminhos de pedra e bosques verdejantes, de ar frio a queimar a cara, de céus azuis e estrelados, de uivos de dragões ferozes e estranhos, de horizontes por descobrir.

Às vezes sonho que sou um navegador do passado em busca de uma qualquer terra distante. Terra de monstros ou de ouro. Que o céu nada pode contra a minha alegria e coragem. Braços abertos ao vento como velas. Que lá, no fim do arco-íris ou no cimo das montanhas, encontrarei o que procuro, seja o que for – o descanso ou a glória, algo para sossegar o meu coração. Mas o sossego nunca chega. Nunca chega o contentamento. A doçura que me fica na língua esvai-se depressa e é só fome o que sinto. Mas qual o caminho, qual o norte?

Quando era pequena, deitada na cama à noite, pensava que não era deste planeta. Sentia-me só, diferente, como se não pertencesse a este mundo. Achava que só podia ter vindo aqui parar para uma qualquer missão espacial.
Não rezava a Deus antes de adormecer. Rezava a um qualquer comandante interestelar.
Não pedia pela minha família nem para ter boas notas na escola. Pedia que um dia me viesse procurar, me encontrasse e me levasse finalmente para casa.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Me Myself and I

Mulher
Anjo
Bicho-do-mato
ou gato domesticado
Impaciente
Incómoda
Doce
Áspera
Lutadora
Indecisa
Copo de água fresca
ou poço escuro
Teimosa
Sonhadora
Indiferente
Concha fechada
ou céu aberto
Ansiosa
Terna
Destemida
Hulk
ou Rick
.
...como é possível caber tudo isto dentro de mim?!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Pirinéus

...5 dias para perceber que afinal o paraíso é aqui na terra...



















Corsa na neve Vista do Refúgio Angel Orús Subida ao Collado de Eriste Diente de la Llardana Via de acesso ao Posets (Canal Fonda) Chegada aos Pirinéus
Cordilheira do Aneto e Maladetas, vista do cimo do Posets (3.375 mt)
Puerto de Chistau
Ibón de Llardaneta
Viadós

sábado, 26 de julho de 2008

Celta

Carrego o teu coração comigo...
Carrego-o no meu coração!
Nunca estou sem ele.
E, onde eu for, tu vais comigo!
E o que quer que faça, faço por ti...
Não temo o destino
Pois tu és o meu destino!
Não quero o mundo
Pois tu és o meu mundo, a minha verdade!
E tu és o que a lua sempre significou
E o que quer que o sol transmita, és tu
Eis o grande segredo, que ninguém sabe
Aqui está a raíz da raíz, o broto do broto,
e o céu do céu, de uma árvore chamada vida,
que cresce mais do que alma pode esperar
ou a mente pode esconder.
E, esse é o prodígio que mantém as estrelas à distância...
Carrego o teu coração comigo
Carrego-o no meu coração!

Edward Cummings (modificado)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O vulcão dentro de mim

Domingo parto para os Pirinéus para tentar conquistar o Posets (3375 mt).
Foi uma semana desgastante no trabalho e não tive muito tempo para pensar na aventura que se aproximava. Mas ontem comecei a organizar os víveres, o saco cama, a roupa. Juntei tudo num monte, que será a minha vida e sobrevivência durante 5 dias. E subitamente aquilo que era ainda só um sonho, começou a ganhar forma e a tornar-se realidade.
É nestes momentos que me apercebo da minha vulnerabilidade, da minha condição de humana mortal. É nestes momentos que desperta uma ponta de medo dentro da minha barriga e que a adrenalina sai pelos poros todos e me faz vibrar de emoção.
Hoje, por isto tudo, lembrei-me de um poema que fala de forças e de vontades...
Até breve!
.
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
(…)
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflicta em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
(…)
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Um dia amigo, um dia...

Manda-me uma foto amigo. Deves ter percebido que eu também gostava de ter uma foto tua. Sim, eu sei que tu sabes, mas mesmo assim finges não perceber. Sim, como sempre aconteceu - os pensamentos e sonhos que ambos adivinhávamos sem ser preciso dizer nada.

Manda-me uma foto amigo, que não te vejo desde há tantos anos, ou talvez desde há pouco, porque a tua imagem é parte das minhas células. Não tenhas medo, nem vergonha, nem seria preciso amigo, pois quem já te viu como eu vi, do direito e do avesso, neste mundo e na lua... Não, não tenhas vergonha se a barriga pesa mais, ou os cabelos estão mais ralos e brancos, porque para mim serás sempre como uma flor acabada de desabrochar. Sim, uma flor, daquelas amarelas de que tanto gostávamos, daquelas que pintámos nos nossos corpos em tempos de guerra.

Manda-me uma foto amigo, que não te vejo há tantos anos e certamente muitos mais passarão até nos reencontrarmos. Muitos mesmo, tantos que poderemos contar no rosto um do outro os silêncios que fomos tecendo bem dentro das nossas cabeças.
Não te vás sem nos reencontrarmos, porque algo em mim se apagaria nesse instante para nunca mais retornar à vida. Não te vás, que não te perdoo e irei procurar-te lá, onde estiveres, provavelmente à vontade entre os anjos, mas juro que vou.

Promete-me amigo, promete-me que vamos tirar uma foto juntos, talvez lá para os sessentas, num qualquer barco de cruzeiro... Lembras-te? Sim, num barco de cruzeiro, quando já não houver mais nada que nos prenda ao mundo e apenas nós... finalmente sem destino e sem fim.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante para mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que o meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz aos que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém... e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é o meu sentimento... e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe...
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obtenha êxito e seja plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um NÃO que a gente teima em maquilhar de verde e entendê-lo como SIM.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ele é especial e importante para mim, sem ter de me preocupar com terceiros... Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.

(Mário Quintana)

domingo, 20 de julho de 2008


Às vezes parece que vivo uma vida de faz de conta...

quinta-feira, 17 de julho de 2008


Esta noite queria um chá gelado
numa rede de baloiço
num qualquer jardim
a olhar a lua azul, cheia
Esta noite queria enroscar-me nuns braços
e em silêncio
deixar-me embalar pela calma
sentir a brisa fresca
e não pensar em mais nada.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O reflexo no espelho

A minha mãe foi ontem hospitalizada.
Foi triste perceber nela aquele olhar de quem finalmente iria ter um pouco de alívio. Alívio que eu não lhe consigo dar, nem outras pessoas, mas apenas os medicamentos ou um qualquer Deus que ela há vezes nem sabe se existe.

Eu, como quase toda a gente, detesto hospitais, detesto aquele cheiro a tristeza e fraqueza que se cola a nós sempre que lá entramos, aquele medo irracional da vulnerabilidade.
Mas a situação não é nova e por isso já sei de cor os nomes dos serviços, dos enfermeiros, das rotinas
médicas, do que se pode ou não comer, e dou por mim a pensar no que virá por aí depois de mais exames e explicações médicas que eu não quero entender.


Dou por mim seriamente a pensar se os meus genes me levarão um dia também para aquela situação, e por um momento sinto-me apanhada na teia de uma vida que eu não teci, mas que me está destinada por direito de nascença.

Desde muito cedo que soube que não queria viver uma vida parecida com a dela e sempre tentei contrariar tudo o que me parecesse minimamente semelhante ao que ela tinha feito. Tentei de tudo, desde ser a filha exemplar, a fazer tudo certo, perfeito, composto, organizado. Como não resultou, tentei ser a ovelha tresmalhada, tentei abraçar uma nova filosofia de vida, mas parece que a cada passo que dou me aproximo mais de cometer os mesmos erros que ela um dia cometeu, de dizer as mesmas coisas que ela um dia disse e de sentir o mesmo que ela me dizia sentir.

No fim percebo que ela tem a força e o entusiasmo que eu reconheço em mim, os mesmo sonhos, e nem a coragem lhe faltou…mas então o que correu mal?
No fim percebo que o que ela não teve foi com quem aprender… e eu ainda tenho!

Um beijo de boa noite mãe.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

ps:...


Sim, para amar é preciso Atrevimento para arriscar a estender a mão e oferecer um beijo;
Loucura para nos atirarmos ao abismo apesar de sabermos que vamos inevitavelmente aterrar de cabeça;
Desassossego pelas noites mal dormidas a pensar no dia do reencontro;
Audácia para darmos o corpo, o beijo, a alma, o ar que respiramos, até não restar mais nada dentro de nós, e mesmo assim sentirmos que o mundo todo (ou só ele) nos enche a alma;
Desespero pelo olhar durar apenas o instante breve de um bater das asas;
Perdição, porque só assim faz sentido!

Ama-me, se te atreves!

sábado, 12 de julho de 2008

A liberdade das tuas palavras que me aprisionava

Fez por estes meses, Junho se bem me lembro, 3 anos que morreste...

Conheci-te tinha 16 anos mal feitos, numa altura de grandes revoluções, soluços ou sobressaltos na minha vida, não sei bem como lhes chamar, mas foram sem dúvida grandes e importantes.

Ainda me lembro, era também uma tarde quente de verão e eu ia sentada no barco que atravessa ao tejo manso.
Desfolhei-te... e fiquei presa para sempre, como um rio ao seu leito, mas instável como as suas margens.

Descobri dentro dos teus poemas a mesma inquietude e inconformismo, o amor ainda encantado e até o cansaço que eu já sentia. Talvez, como tu, procurasse encontrar a paz que só as folhas dos livros me davam.
Cada poema ou cada conto era um mundo onde me refugiava, e por um instante mágico era princesa, ou árvore, ou Che Guevara, e livre para viver os meus sonhos.

A JORGE DE SENA,
NO CHÃO DA CALIFÓRNIA


É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em tio rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca
ao uivo de lobos acossados.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

(Eugénio de Andrade - Agosto 1978)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Maiorca - Torrent de Pareis (Torrente dos Gêmeos)


"(...) Mas sentia falta das montanhas. Não, a vida não tem sentido sem montanhas enevoadas. Não nos podemos medir sem elas e acho que as pessoas devem medir-se constantemente para evitar sentirem-se mais pequenas." (in O quase fim do mundo - Pepetela)


Regressei de férias com aquela melancolia própria de quem ainda sente o cheiro adocicado a figos pelo ar, o quente das águas verde esmeralda, o sabor das comidas diferentes...e dos daiquiris e dos gins tónicos. Nas minhas férias houve também montanhas. Montanhas com o mar em fundo. Estradas estreitas, impróprias para cardiacos. Árvores a crescer em rochedos debruçados sobre o mar.
O tempo passa tão depressa quando se está bem, como que a querer dizer-nos "isto é só uma amostra do que a vida tem para te dar, tanta coisa boa, é só procurar...e nunca desistir de lá chegar!"

"O quase fim do mundo" do escritor angolano Pepetela foi o meu livro de férias. Vale a pena ler, pois a história é fantástica e muito bem contada, sempre com aquele gingar africano que me fazia rir onde quer que estivesse.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Finalmente, FÉRIAS ! ...até à vista :-)))

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Para a minha filha

Nesta data, há vários anos atrás, nascia a minha linda princesa, de quem tanto me orgulho... hoje e sempre.
Que encontres sempre espaço para florir, mesmo por entre as pedras do caminho!

"Procurei um poema, para ti filha,
vasculhei tudo, tudo, na memória
- esforcei-me e desisti.

Nenhum
diz o teu sorriso
ou as tuas mãos no meu pescoço,
o teu olhar, a tua doçura.

Não há poema que te sirva,
que te diga
mesmo quando fazes birra e choramingas.
Não existem palavras
que falem do amor
e das cerejas ainda flor
ou o carinho que contigo conheci.

Não há poema que te desenhe,
minha filha pequenina,
papoila, menina ou borboleta,
andorinha e feiticeira."

(Fátima Pinto Ferreira)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Sempre acreditei que se pode ler no rosto a história da nossa vida

Uma ruga pela a saudade de quem está longe
Uma ruga pela alegria dum filho nascido
Uma ruga pela tristeza de uma morte
Uma ruga pelo cansaço de ganhar o pão
Uma ruga pelo peso de tudo o que vamos aprendendo e guardando dentro de nós
Uma ruga pelo sorriso de um sonho cumprido
...e muitas por todos os que vamos deixando para trás.
E o que acontece quando, no rosto, não há mais espaço para escrever?
(tenho saudades do meu avô...)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Que seria de mim sem as montanhas?


"Que seria de mim sem as montanhas. Que modo de vida teria? Para onde iria?"

(Carlos Moreira)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A vida e a morte pelos olhos de um garrano


Leio hoje no DN a notícia de que mais 5 cavalos garranos foram abatidos a tiro em Melgaço, duas semanas após um ataque semelhante contra outros 10 animais.

Um crime contra todos nós e uma ameaça para a natureza, tanto mais porque só existem cerca de 2000 animais desta raça, quase extinta.

A primeira vez que vi um garrano foi há menos de um ano, durante uma caminhada que fiz no Gerês com uns amigos de Famalicão. Lembro-me que na altura um habitante local nos disse que iriamos ver "centenas de cavalos". Essa frase ficou guardada na nossa memória e até achámos engraçado, porque acabámos por ver apenas 4 ou 5 animais.

Ainda guardo a imagem dos cavalos em liberdade - a liberdade que eu queria experimentar - e naquele momento pensei "esta é a imagem mais bonita que levo desta serra!".

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Esta noite queria a tua mão para agarrar
Esta noite queria uma cama com lençóis amachucados
Esta noite vestia-me de branco só para ti
Esta noite queria ir para aquele lugar onde os nossos sonhos marcam encontro
…e amanhã, nascer dentro do teu sorriso

Eu...

— Como é bela!
— Pois sou – respondeu a flor num murmúrio.
O principezinho teve a intuição de que ela não devia ser nada modesta, mas era tão terna!
Um dia, aludindo aos quatro espinhos que possuía disse ao principezinho:
— Podem vir os tigres com as suas garras! Não receio nada os tigres, mas tenho horror às correntes de ar. (…)
«Havia de não lhe ter dado ouvidos», confidenciou-me um dia, «é preciso nunca dar ouvidos às flores. Apenas se deve olhar para elas e cheirá-las. A minha perfumava-me o planeta, mas eu não era capaz de me deleitar com isso. Aquela história das garras, que tanto me aborreceu, havia antes de me ter enternecido...»
E confidenciou-me ainda: «Naquela altura não fui capaz de compreender! Devia julgá-la pelos actos e não pelas palavras. Ela perfumava e enfeitava. Eu nunca devia ter fugido! Para lá das artimanhas, devia ter adivinhado a sua ternura. As flores são tão incoerentes! Eu era novo de mais para saber amá-la.»
(…) O principezinho pensava nunca mais voltar. Ao regar a flor pela última vez e ao preparar-se para a cobrir com a redoma, reparou que tinha vontade de chorar.
— Adeus — disse à flor.
Ela não respondeu.
— Adeus — repetiu.
A flor tossiu. Mas não por causa da constipação.
— Fui tola — disse, por fim. — Perdoa-me. Trata de ser feliz.
Surpreendeu-o a ausência de censuras. Deteve-se, muito perturbado, com a redoma na mão. Não compreendia aquela afabilidade calma.
— Sabes, eu amo-te — disse a flor. — Nunca to disse, a culpa é minha. Não, faz mal. Mas foste tão tolo como eu. Trata de ser feliz... Deixa aí a redoma. Já não a quero.
— Mas o vento...
— Não estou tão constipada... O ar fresco da noite até me vai fazer bem. Sou uma flor.
— Mas os bichos...
— Terei de suportar duas ou três lagartas se quiser saber como são as borboletas. Dizem que são muito lindas!
Se não, quem virá visitar-me? Tu, tu estarás longe. Quanto aos bichos grandes, não tenho medo nenhum. Tenho as minhas garras.
E mostrou, ingenuamente, os quatro espinhos. Depois prosseguiu:
— Não estejas com delongas, é irritante. Decidiste partir. Vai-te embora.
Porque não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muitíssimo orgulhosa...
(in O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O meu irmão cresceu

O corpo cresceu e há fios prateados à solta na sua cabeça
as palavras ouvem-se agora mais brandas e cansadas
poucas, como se um peso lhe saisse da alma,
gota a gota
o meu irmão não chora lágrimas
ainda chora aquela raiva que o corpo não consegue reter
e que também cresceu com ele desde cedo
mas o meu irmão cresceu...
como cresceram as mãos com que ele agora segura o filho.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Disseste: “Um dia poderemos ser felizes no Evereste”.
Por isso, caminho trilho após trilho, corro pelos campos fora,
salto ribeiros, subo montanhas cada vez mais altas
…e um dia, sei que chegarei lá.

O Gerês na PAN Parks

O Semanário Sol traz hoje uma notícia sobre a adesão do PNPG à PAN Parks, uma rede que integra as áreas naturais mais importantes da Europa, fundada pela WWF (organização de protecção da natureza cujo trabalho admiro muito), em parceria com a alemã Molecaten - http://www.panparks.org/Cover.
O PNPG é, até ao momento, o único parque na península ibérica a obter esta distinção.
De notar que as áreas protegidas candidatas à certificação PAN Parks, são sujeitas a um rigoroso processo de auditoria independente, onde são considerados vários critérios, como a qualidade do ambiente e dos valores naturais, a gestão da conservação da natureza e da biodiversidade, a gestão dos visitantes e o desenvolvimento do turismo sustentável.

O que me surpreende com esta notícia é como foi possível obtermos esta certificação quando ainda há tanto de básico por fazer, p.ex. na questão da gestão de visitantes.
Admito que até possa estar mal informada, mas tanto quanto posso avaliar pelas minhas idas ao Gerês, as informações disponíveis para os visitantes no local são escassas, os serviços de apoio inexistentes, as casas dos guardas do parque (situadas em locais estratégicos de início de trilhos) estão fechadas e algumas em ruínas, quando poderiam ser aproveitadas para apoio aos visitantes, e certos locais considerados áreas de protecção total (como as minas dos Carris) estão cheios de lixo.

Espero sinceramente que esta certificação possa servir para trazer uma melhoria nas condições de protecção da fauna e flora do parque, na limpeza, nos serviços de apoio a quem gosta de lá caminhar... e não apenas mais uma forma de alguém, sentado num gabinete, lucrar com isso.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Pirinéus "Circuito dos Três Vales e Posets"


Faltam 43 dias e 6 horas e 51 minutos para concretizar um sonho!

...e estou para aqui a escrever isto, na hora do jogo, porque Portugal está a perder 2 a 0 com a Alemanha :-/

O sabor da liberdade

Fez um ano que descobri o sabor da liberdade. Basto-me a mim mesma, e essa descoberta deu-me serenidade.
Talvez me tenha tornado mais egoísta, passando a olhar mais para as minhas necessidades, vontades e sonhos, mas ao mesmo tempo tornei-me também mais altruísta e agora dou sem a ansiedade de esperar nada em troca.
Hoje, quando caminho, o mundo é só meu e eu pertenço toda ao mundo. Nada se entrepõe entre nós. E no meu rosto nasce um sorriso que não se apaga e uma felicidade tão grande que não cabe no peito.
Volto a ser criança, volto a ser semente, terra, ar, átomo… e o caminho reconhece-me os passos!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O Lado Selvagem


Um filme que vi recentemente e que me marcou por várias razões: a coragem e os desafios que Chris McCandless aceitou para viver a vida que desejava, a mensagem do filme, a fotografia, a banda sonora e as fabulosas paisagens do Alasca.

Adagio

Este início é para ti. Sim, para TI!
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca e
floresceram comigo.
(Pablo Neruda)