
És como um espectro na noite
Dói quando a noite é fria e tu és apenas uma memória
...vem assombrar os meus sonhos
...como hoje
"Lá em cima, na montanha, não há nada, apenas a história que escrevo com a própria vida para lá chegar."
Há uma rua na minha cabeça chamada esperançaI
O semáforo fica verde e arranco. Ao fazer a curva reparo num carro que vem em sentido contrário. "O que é que aquele doido está a fazer? Ele não vai conseguir parar...". O segundo que demora até o carro embater no meu é demasiado longo. Não me mexo, não reajo…a minha boca abre-se em espanto e só penso “ele vai parar, ele vai parar...oohhh, ele não vai parar...”. Olho, incrédula, o destino que vem na minha direcção. Branco. Vejo tudo branco. Rebolo...não sei para que lado é o chão ou o céu. Talvez seja neve porque sinto um frio nas costas que me queima de dentro para fora. Não, não pode ser neve porque estamos em Agosto e em Agosto não neva em Paris. A boca sabe-me a ferrugem e a sal. Ouço o barulho de sirenes e tento virar a cabeça nessa direcção. Forço os olhos que se abrem novamente para o branco... ah, afinal é a camisa que me cai sobre a cara. Por entre o vidro rachado vejo um rosto que reconheço a sair da ambulância. Um fantasma do passado preso à memória do presente. Fixo os meus olhos nos teus e sorrio. Há uma mão que me toca no ombro e depois sou arrancada ao abraço do carro. Ouço um gemido a sair da minha boca que não me lembro de ter dado. Seguras-me a mão. Prendes-te a ela como que para me prender à vida. Vejo-te gritar para alguém, mas não ouço o que dizes. O único barulho que ouço é o do frio a cobrir-me, como um navio a arrastar-se pelo meio do gelo. Queria estar encostada a ti, sentir o teu corpo quente a embalar-me, sentir os teus braços à volta do meu corpo e a tua mão a segurar-me o peito como costumavas fazer... Sorrio à lembrança…mas talvez a minha boca tenha feito um trejeito diferente ou descoordenado, porque no teu rosto há agora uma máscara de horror e angústia. Aproximas-te de mim como se me fosses contar um segredo e num murmúrio dizes para ti próprio "Continuas a usar os brincos de pérola que te dei...". Sorrio. "Seu tolo, eu sempre te amei!"
II
O príncipe entrou como um vendaval e atirou-se de joelhos aos pés da cama, abraçando as mortalhas de seu pai. Havia um cheiro penetrante a incenso e a vazio. A rainha-mãe estava de pé no meio do quarto, olhando-o angustiada e ainda incrédula da tragédia. Com um suspirou profundo baixou o rosto, mas logo recuperou a compostura e se ergueu como quem tem um dever que lhe transcende a vontade. Há muito a fazer. Há um novo rei a coroar. Há uma casa a governar. Há uma promessa a fazer cumprir.
“Meu filho, agora és rei! Todos esperam de ti um comportamento exemplar e a vida que levaste até agora terá de acabar.”
O príncipe enterrou ainda mais o rosto na cama, como se tentasse impedir aquelas palavras de o atingirem. “Essa mulher não é digna de estar ao teu lado. Afastou-te dos teus deveres demasiado tempo, tornou-se uma mancha na reputação desta família e agora é altura de ser afastada.” “Eu amo-a mãe!” E estas palavras saíram como um silvo de agonia por entre os dentes cerrados. Nos seus olhos abertos havia água, sangue e uma mágoa imensa de quem sabe estar prestes a ser quebrado em pedaços. "Meu filho, o amor que destrói uma família acaba por se destruir a si próprio", disse a mãe olhando com ternura para o filho."Mas mãe...". "Basta!", disse a rainha, "Voltará a haver paz nesta casa. Era este o desejo de teu pai! Sabes o que isso significa, não sabes?”. O silêncio encheu o quarto envolto na penumbra. O príncipe ergueu-se lentamente sob o peso desta dupla sentença. O seu rosto tinha agora a mesma expressão sombria dos panos que cobriam os espelhos do quarto e, no entanto, estava sereno em toda a sua certeza. Curvou-se em reverência perante sua mãe e disse, naquela voz solene e grave que só os reis possuem, “Seja feita a sua vontade”.
III
- Eu amo-te... se soubesses como te amo, mas ao mesmo tempo como me sinto pequena e estranha… é que há momentos em que me sinto infeliz quando não posso estar só... tenho a impressão de não ter lugar neste mundo a não ser no recanto que me ofereceste dentro de ti. Até te encontrar para mim tudo era uma prisão, sentia-me sempre fechada e tu abriste-me o mundo inteiro e quando penso nisso…na maneira como te deste, na liberdade que me deste, digo-te que fui estúpida por ter tido medo e não ter tido força para suportar todo o mal à nossa volta. Queria dizer-te que quando nos afastámos tentei não pensar em ti – de que me valia - tentei descobrir outras vidas, viajar, conhecer novas pessoas, mas tudo me fazia lembrar de ti, como se o meu coração tivesse ficado no teu peito e eu não conseguisse viver em paz. Mas o importante é que o teu coração continue meigo, porque sei que se ele for meigo, então eu nunca te perderei. Sei que agora já é tarde, mas se um dia precisares de mim, se não puderes aguentar mais com a tua vida, eu irei ter contigo onde estiveres...agora já posso esperar. - A sério que me esperas?
- Sim, eu espero.
Recomeça...
O tempo é como um corpo amputado.






Lá dentro o escuro era profundo e expesso como um nevoeiro. Não fazia frio, pelo contrário, sentia-se um calor aconchegante como se fosse o ventre de uma mãe. Moly esgravatava de forma rápida e precisa, sabendo o caminho a seguir, mesmo no meio daquele negrume. Ela gostava de construir coisas, de ver nascer algo das suas mãos vindo do nada, ou apenas da terra e do barro. Aquela era a sua casa e, apesar de mergulhada na escuridão, era para ela mais brilhante que um prado iluminado pelo sol num dia de verão. Lá dentro o ar tinha cheiro a musgo e a terra molhada pelas primeiras chuvas. 
Espreitou por entre a folhagem do arbusto e viu no ar um rodopio das últimas folhas vermelhas que o vento arrancara do grande plátano. A chuva tinha começado a cair. Ele detestava água e tudo o que se parecesse com ela. Assim são os gatos e o Pintas, nisto, não era diferente. Sacudiu o pêlo já ensopado e sentiu um frio estranho. Voltou a enroscar-se, o focinho pousado sobre as patas, o olhar pousado nos pinheiros já nevados do outro lado do riacho. Fechou os olhos e respirou fundo, quase como um suspiro. Fechou os olhos e viu aquela capa de penas negras num corpito frágil de andorinha. Fechou os olhos e ouviu-a chilrear ao seu ouvido aquelas lenga-lengas que ela passava vida a dizer. Agora soavam-lhe estranhamente quentes e reconfortantes, embalavam-no. Na altura não conseguira entender. Mas claro, ela era um pássaro e a ele faltavam-lhe as asas para sonhar com a neve, branca como o peito dela. E como era bonito aquele peito, com pequenos fios prateados como que a desenhar um mapa do mundo, um trilho até ao coração. O frio fê-lo arrepiar. Vinha de dentro, do corpo vazio. Devia ter-lhe dito que não gostava de água. Devia ter-lhe contado que sempre sentira medo de ter medo, de falhar, de falhar a neve e tudo o que ela mais desejava. Devia ter-lhe dito que não era mais que um gato vadio, que correra meio mundo para ganhar aquela pelagem de rei, cor de chocolate de leite.







O dia tinha nascido bonito. O sol iluminava o riacho e a andorinha, do alto do limoeiro, gostava de olhar os peixes a nadar no fundo. Pensou para si que um dia também iria saber fazer aquele bailado sincronizado, mas a voar claro. Via as achigãs verdes a debicar à tona da água, os girinos velozes em acrobacias por entre os juncos submersos, ouvia a cantoria das rãs e ao longe o planar silencioso de um milhafre. Esconde-te rã, esconde-te depressa, pensava a andorinha. Abriu os olhos e lembrou-se que tinha ficado de ir buscar umas raspas de limão para fazer arroz doce para oferecer. O Pintas, gato diferente, gostava de limão e mais ainda de arroz doce com limão. O que é que andaste a fazer durante tanto tempo? Andas sempre com a cabeça na lua! - disse o Pintas. A andorinha, triste daquele azedume mais azedo que o limão, não respondeu. Afastou-se para junto da panela e juntou as raspas de limão ao arroz que já estava doce e ficou ali, enroscada ao lume, a aquecer-se. Sentia um frio estranho. Fechou novamente os olhos e pensou no riacho e no vôo do milhafre. Queria tanto voar assim, planar silenciosa até ao deserto, ou apenas até à floresta do outro lado do riacho onde nunca tinha estado. Sabia que lá já nevava pois via as copas das árvores pontilhadas de um branco igual ao seu peito. Colo de Garça era como lhe chamavam. O Pintas não o sabia. Nem nunca lhe tinha perguntado. A andorinha aproximou-se dele e pediu-lhe para a levar no seu dorso até à floresta. Ela gostava tanto de ver a neve e haviam de ficar bem os dois a passear, ele cor de chocolate de leite e ela negra, com o peito a condizer com aquela imensidão branca.



"Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.


"Os guerreiros da luz reconhecem-se pelo olhar. 
não me fales da neve.

"8850 metros de altitude: não faço ideia do que seja, não imagino o que se possa sentir. Sei apenas que há-de ser algures, física e emocionalmente, o lugar mais próximo dos deuses que os homens podem alcançar aqui na terra. Sei que deve ser um lugar de abismos e de espantos, de sonho e de demência, vago, impreciso, envolto em névoa e em pavor e, todavia, ali mesmo ao alcance do derradeiro esforço.
Que há muita coisa mal, que este mundo está do avesso por valorizar mais o futebol de milhões (pessoas e euros), e que estes actos deveriam servir de exemplo para todos nós que vivemos agarrados ás nossas pequenas mazelas, já nós sabemos.
"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.(...)

George Mallory, o lendário alpinista britânico, que pode ter subido o Everest 30 anos antes que Hillary, resumiu o chamamento da montanha "porque está ali", explicando deste modo a sua ansiedade pelo cume.
Há dias em que a vida nos dá uma trégua
Carrego o teu coração comigo...
Manda-me uma foto amigo. Deves ter percebido que eu também gostava de ter uma foto tua. Sim, eu sei que tu sabes, mas mesmo assim finges não perceber. Sim, como sempre aconteceu - os pensamentos e sonhos que ambos adivinhávamos sem ser preciso dizer nada.
Não quero alguém que morra de amor por mim...
A minha mãe foi ontem hospitalizada.
"(...) Mas sentia falta das montanhas. Não, a vida não tem sentido sem montanhas enevoadas. Não nos podemos medir sem elas e acho que as pessoas devem medir-se constantemente para evitar sentirem-se mais pequenas." (in O quase fim do mundo - Pepetela)

Uma ruga pela a saudade de quem está longe
— Como é bela!
O Semanário Sol traz hoje uma notícia sobre a adesão do PNPG à PAN Parks, uma rede que integra as áreas naturais mais importantes da Europa, fundada pela WWF (organização de protecção da natureza cujo trabalho admiro muito), em parceria com a alemã Molecaten - http://www.panparks.org/Cover.
Fez um ano que descobri o sabor da liberdade. Basto-me a mim mesma, e essa descoberta deu-me serenidade.
Este início é para ti. Sim, para TI!